O começo do ano letivo costuma ser sempre mais sensível para as crianças. Para muitas delas, a escola é a primeira grande separação da rotina familiar, e isso pode aparecer em forma de choro, irritação, regressão ou até mais necessidade de colo. A boa notícia é que, na maioria dos casos, esses sinais fazem parte do processo de se acostumar ao novo momento.
Segundo Alessandra Petraglia de Freitas, psicóloga formada pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), a adaptação escolar é o período em que a criança se ajusta emocionalmente, socialmente e comportamentalmente ao ambiente da escola. Ela envolve a separação dos responsáveis, a criação de vínculo com professores, a convivência com outras crianças e a assimilação de novas rotinas e regras.
Sinais de que a adaptação escolar está evoluindo bem
Alessandra alerta que é natural que o choro aconteça, especialmente na entrada. O importante é observar como isso muda com o tempo. Segundo Alessandra, a adaptação evolui bem quando o choro diminui gradualmente e a criança consegue se reorganizar depois de entrar.
Ela aponta alguns sinais práticos:
- Aceitar o acolhimento do professor;
- Distrair-se após a entrada;
- Explorar o ambiente;
- Demonstrar curiosidade pelas atividades;
- Manter sono e alimentação relativamente estáveis;
- Comentar sobre a escola em casa, ainda que com sentimentos mistos.
Não existe um prazo único, mas há um intervalo considerado comum. Em média, o processo dura de duas a quatro semanas e pode chegar a seis semanas sem que isso signifique um problema.
O que costuma facilitar: rotina previsível, alinhamento entre família e escola, confiança dos responsáveis e despedidas claras. O que tende a dificultar: adultos inseguros, mudanças constantes de horários e comparações com outras crianças.
Choro na adaptação: quando é esperado e quando preocupa
Chorar é uma reação esperada na adaptação, porque expressa saudade, medo e insegurança. A atenção deve estar no padrão e na evolução: se o choro diminui com os dias, o processo tende a estar caminhando.
“Os sinais de alerta aparecem quando o sofrimento se mantém forte e persistente. Entre eles estão choro inconsolável que não melhora, regressões importantes, apatia excessiva, isolamento, queixas físicas frequentes sem causa médica, alterações significativas no sono e na alimentação e crises intensas recorrentes antes de dormir ou ao acordar”, afirma Alessandra.
O que os responsáveis podem fazer (e o que atrapalha)
Em casa, ajuda falar sobre a escola com segurança e honestidade, validar sentimentos e manter rotinas previsíveis. Brincadeiras simbólicas (como “brincar de escolinha”, por exemplo) também podem ajudar a criança a elaborar o que está vivendo.
Na entrada, a orientação é simples: despedida breve, clara e afetuosa, com a mensagem de que o adulto volta e com a informação de quem vai buscar depois.
Alessandra faz um alerta: o que costuma atrapalhar são despedidas longas. “Além disso, voltar depois de já ter se despedido, observar escondido, prometer recompensas para a criança parar de chorar ou usar ameaças ligadas à escola costuma aumentar a ansiedade”, explica.
O papel da escola e do professor na adaptação escolar infantil
A escola também precisa conduzir a adaptação com intencionalidade. Entre as práticas que mais ajudam estão ter um professor de referência nos primeiros dias, acolher o choro sem pressa de silenciar, nomear emoções, oferecer rotina previsível e manter comunicação frequente com a família. “A construção de vínculo deve ser priorizada antes de qualquer exigência pedagógica”, destaca Alessandra.
Quanto a rotina de sono e alimentação nas primeiras semanas, o ponto é que ajustes simples em casa costumam reduzir o desgaste do período. A recomendação é manter horários regulares de sono, antecipar a hora de dormir, criar um ritual noturno previsível e evitar estímulos excessivos à noite.
Também ajuda oferecer um café da manhã reforçado, priorizar alimentos conhecidos e reduzir compromissos extras após a escola, para evitar sobrecarga física e emocional.
Crianças com necessidades específicas: como planejar
Em casos de Transtorno do Especto Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou hipersensibilidades, a adaptação deve ser individualizada. Visitas prévias à escola, rotina visual, permanência gradual e ajustes sensoriais no ambiente costumam favorecer o processo, além de professor informado e comunicação diária com a família.
A busca por ajuda profissional é indicada quando há sofrimento intenso e persistente, crises frequentes, recusa total à escola ou impacto significativo no desenvolvimento emocional e funcional da criança.
Primeira semana: orientações e erros comuns
Na primeira semana, o foco deve ser a consistência. Alessandra orienta que a família mantenha uma rotina regular de sono e alimentação, faça despedidas breves e seguras na entrada e, sobretudo, demonstre confiança na escola diante da criança.
Do outro lado, she alerta para atitudes que costumam dificultar o processo, como prolongar a despedida e invalidar o choro com frases que minimizam o que a criança sente, a exemplo de “não foi nada” ou “para com isso”.
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Fonte : CNN