A transição energética global costuma ser apresentada como uma história de inovação, painéis solares reluzentes, carros elétricos silenciosos e metas climáticas ambiciosas. Mas por trás dessa narrativa “limpa” existe uma realidade muito mais crua: uma disputa crescente por minerais críticos que sustentam toda a economia de baixo carbono.
Não estamos apenas trocando o petróleo pelo elétron. Estamos migrando para a era da “Geopolítica de Recursos 2.0”, em que o eixo do poder deixa de ser apenas quem controla o fluxo de barris e passa a ser quem domina o ciclo completo de extração, refino e processamento de materiais como lítio, cobalto, níquel, cobre e terras raras. São esses insumos que viabilizam baterias, turbinas eólicas, células fotovoltaicas, chips de alta performance e toda a infraestrutura digital e verde do século XXI.
Em outras palavras: quem controlar esses minerais – e, sobretudo, suas cadeias de valor – controlará as bases da segurança energética, da competitividade industrial e até da autonomia militar nas próximas décadas
A hegemonia chinesa e a lógica da integração vertical
Desde o início da transição energética, nenhum país entendeu essa dinâmica tão bem quanto a China. Segundo o relatório Raw Power (Climate Energy Finance) e levantamentos de entidades como a Agência Internacional de Energia (AIE), desde 2023 Pequim já destinou mais de US$ 120 bilhões à mineração e ao processamento de lítio, níquel, cobre e terras raras, em diversos continentes.
Mas o diferencial chinês não é apenas o volume de capital: é a integração vertical estratégica.
Ao articular esses investimentos na base da cadeia com mais de US$ 220 bilhões em manufatura de tecnologias limpas – incluindo baterias, painéis solares, veículos elétricos e redes de transmissão – a China construiu algo que nenhuma outra potência possui hoje: uma cadeia de valor quase completa e coesa para a economia de baixo carbono.
Os números são eloquentes, de acordo com estimativas recentes de organismos internacionais:
- Cerca de 90% da capacidade global de refino de terras raras está sob controle chinês.
- Mais de 70% do refino de cobalto, essencial para baterias de alta densidade, também passa por plantas localizadas na China.
- Aproximadamente 60% do processamento global de lítio, peça-chave da eletromobilidade, é feito lá.
- Na cadeia de baterias para veículos elétricos, a China responde por mais de 70% da capacidade mundial de fabricação de células.
Essa posição não se limita à “simples posse” de recursos naturais – muitos dos minerais vêm de países da África, da América Latina e da Oceania. O que a China domina é aquilo que, na prática, define quem captura valor: as etapas de refino, processamento químico e manufatura avançada.
É esse controle da infraestrutura material da transição – dos minerais ao produto final – que consolida uma liderança geopolítica silenciosa, mas profunda. Enquanto Europa e Estados Unidos ainda discutem como reduzir sua dependência, cadeias inteiras já estão ancoradas em empresas, tecnologias e padrões industriais chineses.
A reação das outras potências: segurança de suprimento como prioridade estratégica
Ao perceberem essa assimetria, outras grandes economias passaram a tratar minerais críticos como tema de segurança nacional, não apenas de política industrial.
- Estados Unidos: o governo norte-americano publicou, nos últimos anos, listas de minerais críticos e lançou iniciativas para fortalecer a mineração doméstica e acordos com países aliados. Programas como o Inflation Reduction Act vinculam incentivos à indústria verde a cadeias de suprimentos mais diversificadas e menos dependentes da China e o Projeto Vault é uma iniciativa dos EUA, anunciada em fevereiro de 2026 com um orçamento de US$ 12 bilhões, focada em criar uma reserva estratégica de minerais críticos e terras raras.
- União Europeia: avançou com o Critical Raw Materials Act, estabelecendo metas de produção, processamento e reciclagem dentro do bloco, além de buscar parcerias estratégicas com países fornecedores na América Latina e África.
- Japão, Coreia do Sul e Índia: também estruturam políticas para garantir acesso estável e previsível a esses insumos, seja via investimento direto, diplomacia econômica ou consórcios com empresas privadas
O denominador comum é claro: ninguém quer substituir a dependência do petróleo do Oriente Médio por uma dependência de minerais processados majoritariamente na China.
O Brasil no tabuleiro: de exportador de minério a potência de “mineração verde”?
Nesse contexto de “recurso-dependência”, o Brasil aparece não apenas como um fornecedor relevante, mas como um player potencialmente indispensável.
O país reúne três atributos raros:
1. Oferta de minerais estratégicos
- Importantes reservas de nióbio, utilizado em ligas metálicas de alto desempenho.
- Potencial significativo em lítio, especialmente no Sudeste e no Nordeste.
- Ocorrências relevantes de grafita, essencial para ânodos de baterias.
- Jazidas de terras raras ainda pouco desenvolvidas.
- Forte presença em cobre, níquel e manganês, todos críticos para a transição energética.
2. Matriz elétrica majoritariamente renovável
Mais de 80% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis (principalmente hidrelétrica, eólica, solar e biomassa), um índice muito superior à média mundial.
Isso significa que o minério extraído e processado aqui pode ter uma pegada de carbono significativamente menor do que em países dependentes de carvão ou gás para geração elétrica.
3. Capital político e reputacional em temas ambientais
Apesar das contradições e desafios, o Brasil ainda é percebido como ator-chave na agenda climática global, principalmente por conta da Amazônia. Essa posição abre espaço para uma narrativa e uma prática de “minerais éticos” e de “mineração de baixo carbono”, se houver consistência entre discurso e execução.
Do “dig-and-ship” ao valor agregado: a janela de oportunidade industrial
Historicamente, a trajetória brasileira em recursos naturais segue o roteiro conhecido: extrair e exportar minério bruto ou com pouco beneficiamento, deixando a maior parte do valor agregado para outras economias.
A nova geopolítica dos minerais, porém, oferece uma chance real de romper com esse padrão.
O movimento global vai na direção de:
- Diversificar cadeias de suprimento, reduzindo a dependência de um único país.
- Rastrear a origem dos minerais e seus impactos socioambientais, a partir de regulações ESG mais rigorosas.
- Reduzir as emissões incorporadas nos produtos, valorizando cadeias com energia limpa e padrões ambientais mais exigentes.
Nesse cenário, o Brasil pode:
- Atrair investimentos para plantas de refino e processamento, posicionando-se não só como exportador de minério, mas como fornecedor de químicos de bateria, ligas especiais e materiais cátodo/anodo.
- Desenvolver clusters tecnológicos próximos às jazidas, integrando mineração, pesquisa, universidades e manufatura avançada.
- Estimular a industrialização em território nacional de componentes essenciais, como partes de baterias, ímãs permanentes para turbinas eólicas e motores elétricos.
Em outras palavras, a transição da lógica “dig-and-ship” para um modelo de adensamento produtivo não é um luxo: é a condição para o Brasil escapar do papel de exportador periférico e entrar na liga dos formuladores de padrões tecnológicos e industriais.
Os obstáculos: competitividade tem preço e não é só geológico
O potencial é grande, mas não se realiza por gravidade. A Geopolítica 2.0 exige muito mais do que um subsolo rico; exige visão de Estado, coordenação público-privada e diplomacia econômica.
Três frentes são decisivas:
1. Segurança jurídica e regulação inteligente
Projetos de mineração e processamento de alto impacto exigem investimentos bilionários e horizontes de retorno de longo prazo. Sem estabilidade regulatória, regras ambientais claras e céleres e previsibilidade tributária, os investidores globais tendem a escolher outras jurisdições, mesmo quando o recurso brasileiro é superior.
O desafio é combinar rigor socioambiental com eficiência. Processos que demoram anos além do necessário não garantem melhor proteção; muitas vezes só produzem insegurança, litigiosidade e fuga de capital.
2. Pesquisa, conhecimento geológico e tecnologia
Em vários minerais críticos, o Brasil ainda conhece mal o próprio subsolo. Mapear, avaliar e classificar novas jazidas é condição básica para:
- Planejar leilões e concessões com mais qualidade.
- Atrair parceiros tecnológicos de alto nível.
- Reduzir assimetrias de informação que prejudicam o país nas negociações.
Além disso, a nossa inserção não pode ser apenas na ponta extrativa. Precisamos investir em:
- Centros de pesquisa focados em novos materiais, reciclagem de baterias e substitutos às ligas mais críticas.
- Cooperação entre universidades, empresas e governos para criar capacidades tecnológicas locais, em vez de simplesmente importar know-how e maquinar.
3. Infraestrutura logística e custo Brasil
Minérios são, por definição, mercadorias pesadas e de baixo valor por tonelada se comparados ao produto final. O custo de escoamento pesa enormemente na competitividade.
Portos congestionados, ferrovias insuficientes, estradas degradadas e burocracia excessiva encarecem o produto brasileiro.
A falta de infraestrutura nas regiões onde estão as jazidas aumenta não apenas custos, mas também impactos socioambientais e tensões sociais.
Se o Brasil quiser ser referência em “minerais verdes”, precisa também garantir que seu
fluxo logístico não seja um gargalo marrom, caro e ineficiente.
ESG, comunidades e legitimidade social: sem licença social não há mineração duradoura
Existe outro ponto sensível: a mineração do século XXI não é apenas uma questão de licença ambiental, mas de licença social.
- Conflitos com comunidades locais e povos indígenas.
- Gestão inadequada de rejeitos e riscos de desastres.
- Degradação de rios, florestas e biodiversidade.
Tudo isso tem um custo reputacional e financeiro crescente. Em um mundo de cadeias rastreáveis, empresas que não comprovarem padrões elevados podem ser excluídas de mercados mais exigentes.
O Brasil tem a oportunidade – e a necessidade – de tornar-se referência em mineração sustentável, combinando:
- Tecnologia de ponta para reduzir impactos e emissões.
- Processos de consulta e participação social mais robustos e transparentes.
- Compromisso efetivo com padrões internacionais de direitos humanos e ambientais.
Se conseguirmos alinhar vocação mineral e liderança ESG, poderemos vender não apenas minério, mas confiança – um ativo cada vez mais escasso nas cadeias globais.
Conclusão: o momento é agora, e a inércia tem custo geopolítico
A corrida pelos minerais críticos já está em curso. Não se trata de um fenômeno futuro, mas de uma reconfiguração em andamento da economia e da geopolítica global.
A consequência da inércia é clara: maior dependência tecnológica, menor autonomia industrial e perda de relevância estratégica. Num mundo em que energia, dados e defesa se apoiam em materiais críticos, quem não ocupa espaço será reduzido ao papel de fornecedor substituível.
O Brasil não pode aceitar ser mero coadjuvante num roteiro escrito por outros. Temos:
- Recursos naturais estratégicos.
- Uma matriz elétrica limpa que é vantagem competitiva real.
- Capacidade de articular política externa, política industrial e agenda climática em torno de um mesmo objetivo.
A mineração moderna é, paradoxalmente para muitos, uma das colunas de sustentação da própria sustentabilidade. Sem cobre, não há cabos para redes renováveis; sem lítio, não há baterias; sem terras raras, não há motores eficientes, turbinas eólicas ou dispositivos eletrônicos de alta performance.
Se soubermos transformar nossa vocação mineral em estratégia industrial e geopolítica, conectando riqueza do subsolo a inovação, alto valor agregado e padrões ESG rigorosos, estaremos fazendo bem mais do que exportar commodities. Estaremos redefinindo o lugar do Brasil na nova economia global – não na periferia das cadeias de valor, mas na sua vanguarda.
Rinaldo Mancin é engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB), e Diretor de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).
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Fonte : CNN