Pouco mais de um mês após uma onda de violência abalar Guadalajara — segunda maior cidade do México —, o município voltou a sediar um evento internacional, tentando demonstrar normalidade e reforçar sua imagem de segurança às vésperas da Copa do Mundo de 2026.
Na ocasião anterior, a cidade havia sido tomada por confrontos após a captura e morte do líder de cartel Ruben “El Mencho” Oseguera.
Ruas ficaram marcadas por carros incendiados, estabelecimentos fecharam as portas e cápsulas de munição se espalharam pelo chão.
Na noite de quinta-feira (26), porém, o cenário foi distinto. Guadalajara recebeu sua primeira partida internacional de futebol desde a operação militar, em meio a esforços para reduzir preocupações com segurança antes do Mundial, que será coorganizado por México, Estados Unidos e Canadá.
Em um confronto equilibrado e com poucas chances claras de gol, a Jamaica venceu a Nova Caledônia por 1 a 0 no Estádio Akron, que recebeu público próximo da capacidade máxima de 50 mil torcedores. O resultado deixou a equipe caribenha mais perto de retornar a uma Copa do Mundo após 28 anos.
“Foi algo que aconteceu em apenas um dia. No dia seguinte, tudo já estava sob controle, então não cancelei as passagens. Sempre estive confiante”, afirmou Rick Brown, canadense de origem jamaicana, de 53 anos, que chegou à cidade na terça-feira com os dois filhos para apoiar a seleção.
“Eu me sinto bastante seguro. Há muitos agentes. A cidade é ótima. Me lembra a Jamaica: as pessoas, a comida, o clima, é como um lar fora de casa”, acrescentou, apontando para o forte esquema de segurança no entorno do estádio.
Apesar do clima positivo dentro da arena, a segurança foi o principal foco fora dela. As duas seleções chegaram ao estádio sob forte escolta, acompanhadas por militares e policiais armados desde o desembarque na cidade.
Guadalajara será uma das sedes da fase de grupos da Copa do Mundo, recebendo quatro partidas e seleções como México, Espanha e Uruguai. As equipes da Coreia do Sul e da Colômbia também escolheram a cidade como base durante o torneio.
De olho no potencial turístico do evento, autoridades locais investiram em infraestrutura e revitalização de espaços públicos. No entanto, a expectativa de receber cerca de 3 milhões de visitantes também evidenciou problemas estruturais, como a violência dos cartéis e o alto número de desaparecidos no estado de Jalisco, cuja capital é Guadalajara.
“Seguimos reforçando a segurança, especialmente no estado. Restabelecemos a presença institucional e medidas para que as pessoas se sintam seguras. E a melhor forma de transmitir segurança é ver agentes por perto”, afirmou o secretário de Segurança Pública de Jalisco, Juan Pablo Hernandez.
Segundo ele, mais de 2 mil agentes atuaram na proteção das equipes e do público no estádio.
O dirigente classificou o jogo entre Jamaica e Nova Caledônia como um dos principais testes antes da Copa e destacou que as forças de segurança locais receberam treinamento de órgãos como o FBI e polícias da França e da Colômbia para lidar com possíveis incidentes.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, declarou que a entidade acompanha a situação no México, mas minimizou preocupações e afirmou ter “total confiança” no país, na presidente Claudia Sheinbaum e nas autoridades locais.
Crise de desaparecimentos
O México registra mais de 132 mil pessoas desaparecidas, sendo cerca de 10% dos casos concentrados em Jalisco — estado que abriga um dos cartéis mais poderosos do país, o Cartel Jalisco Nova Geração.
A presidente Claudia Sheinbaum prometeu aprimorar a capacidade das autoridades na busca por desaparecidos, com maior integração entre forças de segurança e compartilhamento de dados entre estados.
Pesquisadores e familiares, porém, afirmam que o número real pode ser ainda maior, já que muitos casos não são denunciados por medo de represálias. Diante disso, grupos de familiares passaram a conduzir buscas por conta própria, criticando a atuação das autoridades.
Em março do ano passado, um caso que chocou o país revelou a dimensão do problema: um grupo de busca encontrou, em um rancho a cerca de uma hora de Guadalajara, aproximadamente 200 pares de sapatos, centenas de peças de roupa e restos humanos carbonizados.
Posteriormente, autoridades indicaram que o local funcionava como centro de execuções e treinamento do cartel.
Desde então, grupos independentes localizaram ao menos 500 sacos com restos humanos em quatro valas comuns num raio de 20 quilômetros do Estádio Akron, evidenciando a gravidade da crise no estado.
“Não somos contra a Copa do Mundo, mas contra o gasto público excessivo com estética e limpeza para turistas, enquanto o México enfrenta múltiplas crises, especialmente de segurança e desaparecimentos”, afirmou Hector Flores, cofundador do grupo de busca Luz de Esperanza.
Flores relembrou o desaparecimento do filho, Hector Daniel, levado de casa em maio de 2021 por agentes ligados à Procuradoria de Jalisco. Após anos de silêncio institucional, a Justiça reconheceu, em junho, que o jovem foi vítima de desaparecimento forçado, confirmando o envolvimento de agentes do Estado e violações graves de direitos humanos.
A Procuradoria de Jalisco não respondeu aos pedidos de comentário.
Para Flores, a realização da Copa pode servir como vitrine internacional para a crise.
“É uma excelente oportunidade para pedir ajuda da comunidade internacional e mostrar o que acontece no México. É inaceitável que mais de 133 mil famílias estejam buscando seus entes queridos sem resposta. Jalisco é uma vala comum — todo o México é uma vala comum”, concluiu.
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Fonte : CNN