Sabemos que a história é cíclica. E muitas vezes esquecemos que as crises podem voltar. Estamos no meio da maior crise energética dos últimos 100 anos. Segundo o diretor-geral da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, em termos de impacto, o atual conflito no Golfo Pérsico equivale as crises de 1973 e 1979 somadas.
Na crise de 1973, o governo brasileiro gerou e implantou o Plano de Mobilização Energética, visando reduzir nossa dependência do petróleo, incentivando o Proálcool e o carvão mineral. Vários projetos foram concebidos, entre eles estudos para gerar gás natural sintético na região carbonífera do Baixo Jacuí, próxima do atual polo petroquímico de Triunfo (RS), transportando cerca de 4 milhões de m3/dia até São Paulo.
Também foi concebida a Companhia Riograndense de Nitrogenados, que deu origem a atual mina de Leão II, também no Baixo Jacuí. O projeto de produção de fertilizantes não saiu do papel, os preços do petróleo e gás caíram no meio década de 80 e a mina ficou aberta até hoje sem tirar uma tonelada de carvão, custando aos cofres públicos cerca de um bilhão de reais.
Na época, o agronegócio não era a potencia de hoje. Ao longo de décadas, a política de produção de fertilizantes nacionais sofreu altos e baixos, como é o preço das comodities, do gás natural. Atualmente, está em discussão a legislação do PROFERT e nada acontece. Na Ásia, onde estive na primeira semana de março, no início desta guerra, a conversa é outra. Sem petróleo e gás, a China procura ancorar sua segurança energética e alimentar no carvão mineral, onde desenvolveu tecnologias de ponta em todas a fases da cadeia produtiva.
Além de todo o parque termelétrico que já possuem, os chineses estão construindo mais 70 GW de usinas térmicas com a maior eficiência e as menores emissões. Na parte de carboquímica, existem mais de 120 projetos operando e outros 20 projetos aprovados para produzir olefinas, que dão origem a plásticos competitivos a um custo equivalente a U$ 35 por tonelada de petróleo.
Mais do que isso, a China tem tecnologia pronta e operando para produzir fertilizantes nitrogenados a partir da gasificação do carvão. Há poucos dias, em função da guerra, restringiu a exportação desses produtos para garantir seu suprimento interno, já que 50 % da ureia exportada vem da região do Golfo.
Por outro lado, com 52% do total de carros vendidos sendo elétricos e como maior investidor em fontes renováveis do mundo, o governo chinês adotou uma política de reduzir sua exposição ao petróleo e o gás importado, aumentando a eficiência do parque termelétrico a carvão e investindo maciçamente em renováveis variáveis.
Exporta 70% das tecnologias limpas, no valor U$ 220 bilhões em 2024. Para atingir sua meta de carbono neutro em 2060, investe em um programa de desenvolvimento tecnológico de captura, armazenamento e utilização de CO2/CCUS, com 120 projetos em diversos estágios e escalas. Além disso, desde o final da década de 90, investe na política de minerais críticos, onde hoje gera uma dependência internacional de certas terras raras de mais de 95%.
O Japão, país que importa cerca de 85% de sua energia primária, desenvolve tecnologias para o uso eficiente das energias importadas como, por exemplo, um dos conjuntos de usinas térmicas a carvão mais eficientes do mundo. A política energética do Japão, com base na tecnologia atual e no risco geopolítico, entende que o custo unitário do carvão é relativamente baixo.
É fácil de armazenar, não tem problemas de suprimento logístico e tem excelente estabilidade de oferta e eficiência econômica. Do mesmo modo, o carvão doméstico não está sujeito a risco geopolítico nem à influência das taxas de câmbio e pode ser garantido de forma estável.
Assim, conforme o Sétimo Plano Estratégico de Energia do Japão, o carvão será mantido em 60% do consumo atual em 2040. Com base nesse estudo, o Japão apoiou a criação, em agosto de 2019, do Carbon Recycling Fund Institute, que busca trabalhar na cadeia de valor agregado do CO2: captura, transporte, armazenamento e utilização do CO2 para criar um ciclo sustentável do carbono, envolvendo hidrogênio, combustíveis sintéticos e mercado de carbono. O fundo tem 273 membros, sendo 155 de corporações e membros do governo, academia e indivíduos. Promove a opinião pública, financia projetos de pesquisa e fomenta a iteração entre seus membros e parcerias internacionais. Com isso, procura atender sua meta de carbono neutro em 2050.
A grande preocupação é com o aumento de consumo de energia, na região do Pacífico asiático, que chegou a 4,1% em 2025, com maior crescimento na China, Índia e Sudeste Asiático. Até 2030, as projeções destes países é que a demanda por eletricidade cresça até 5 % ao ano, com base na energia fóssil. Esse alarme já tinha sido acionado, na análise dos países do Sudeste Asiático, com a maior demanda para importação de gás e petróleo, aumentando a conta de importação e o risco de suprimento. Agora, com o atual conflito no Golfo, esses riscos foram ampliados, reforçando a tese de uso do combustível doméstico e do importado, em especial o carvão, de países vizinhos como Austrália e Indonésia.
No Brasil, a dependência de cerca de 85 % de fertilizantes importados, como os nitrogenados, escancara a necessidade urgente de se implantar uma política industrial de verdade. É cada vez mais urgente produzir no país o fertilizante com insumos nacionais, entre eles o carvão mineral. Políticas federal e estaduais devem ser estruturadas para dar competitividade e estabilidade de preço ao produto nacional.
Durante a visita à China, vimos as tecnologias para produzir diversos produtos, como sulfato de amônia, bicarbonato de amônia e um dosador lento de fertilizante, a zeólita feita de cinzas das termelétricas a carvão, que conciliam reaproveitamento de resíduos e captura de CO2. Também observamos termelétricas estrategicamente localizadas junto a enormes áreas de parques solar, no meio de áreas áridas, pois a China aprendeu, em 2021, que, quando há uma falta de combustível (sol, vento ou água), é preciso ter fonte firme para garantir a segurança elétrica.
Em resumo, está na hora do Brasil olhar para o seu outro pré-sal energético: o carvão mineral nacional. Em tempos de conflitos, alta demanda elétrica e alterações climáticas, essa pode ser a nossa melhor reposta para os dois grandes desafios da humanidade: a segurança energética e alimentar.
À luz das novas tecnologias de mineração, usos e eficiência ambiental, como bem demonstram os chineses, isso não é só viável, mas urgente. Com toda sua riqueza mineral e boa parte de suas jazidas carboníferas intocadas, o Brasil pode liderar o Cone Sul nesse novo momento.
Estrategicamente, devemos olhar os bons exemplos de políticas públicas internacionais para não sofremos com sustos geopolíticas ou mudanças climáticas. O pragmatismo deve prevalecer às narrativas, pois as políticas públicas devem visar o interesse de toda a sociedade.
* Fernando Luiz Zancan é engenheiro de minas e presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS)
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Fonte : CNN