O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, participam nesta quinta-feira (26) da segunda audiência do processo judicial que enfrentam nos EUA, no Tribunal do Distrito Sul de Nova York.
O processo envolve acusações graves relacionadas ao narcotráfico internacional e pode resultar em décadas de prisão.
A audiência ocorre após mais de 80 dias de detenção do casal no sistema prisional americano e deve tratar de questões processuais relevantes antes do eventual julgamento.
O que é e como funciona a audiência
A sessão desta quinta-feira deve ser uma audiência de instrução, etapa em que o juiz avalia questões preliminares do processo antes do julgamento.
Entre os pontos que podem ser discutidos estão as regras sobre apresentação de provas, o financiamento da defesa, pedidos da defesa e da acusação e eventuais ordens judiciais sobre o andamento do caso.
O responsável pelo caso é o juiz federal Alvin Hellerstein, que também conduziu a primeira audiência.
Como foi a primeira audiência
A primeira vez que Maduro e Flores compareceram à Justiça dos EUA ocorreu em 5 de janeiro, no Tribunal do Distrito Sul de Nova York, dois dias após a captura em Caracas. Na ocasião, ambos se declararam inocentes de todas as acusações, e optaram por não solicitar liberdade sob fiança naquele momento.
O juiz deixou claro que eventuais alegações sobre a legalidade da captura seriam discutidas posteriormente.

As acusações contra Maduro
Maduro e sua esposa enfrentam acusações baseadas em uma denúncia apresentada inicialmente em 2020 nos EUA, incluindo narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína, posse de armamento pesado, conspiração criminosa internacional, lavagem de dinheiro e corrupção.
Segundo autoridades americanas, o líder venezuelano teria ligação com estruturas de narcotráfico internacional.
Por outro lado, a defesa pede o arquivamento do processo e alega violação de direitos constitucionais, incluindo dificuldades para financiar a própria defesa devido a sanções internacionais.
A prisão onde Maduro está
Maduro e Flores estão detidos no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn (MDC, na sigla em inglês), em Nova York, uma das unidades federais mais criticadas do país.
Relatos de advogados e especialistas apontam condições consideradas insalubres, superlotação e problemas estruturais, denúncias recorrentes sobre alimentação inadequada e falhas no atendimento médico e de saúde mental.
O local já foi descrito por especialistas como um dos mais problemáticos do sistema penitenciário federal americano.
“Eu esperaria que a rotina deles fosse de 23 horas por dia em confinamento solitário”, explicou Cameron Lindsay, ex-diretor da unidade.
Isso implica confinamento quase total em uma cela, refeições entregues por uma fresta na porta, pouco ou nenhum contato com outros detentos e recreação limitada, geralmente sozinhos.
Embora o BOP (Departamento Federal de Prisões) não tenha confirmado em qual unidade específica ele se encontra nem fornecido detalhes sobre as condições de sua detenção, especialistas e advogados concordam que pessoas com seu perfil geralmente são mantidas na Unidade de Habitação Especial, conhecida como SHU.
“É o nível mais restritivo dentro da instalação”, explicou o advogado criminal e de direitos civis Daniel McGuinness à CNN.

Construído na década de 1990 para combater a superlotação carcerária, o centro já abrigou figuras como o cantor R. Kelly, o “Pharma Bro” Martin Shkreli, a socialite Ghislaine Maxwell, o ex-prodígio das criptomoedas Sam Bankman-Fried e o magnata da música Sean “Diddy” Combs.
Casal separado
No Centro de Detenção, homens e mulheres são alojados em unidades completamente separadas, mesmo que sejam casados.
Mesmo dentro da mesma unidade, ele e Cilia Flores não podem se comunicar diretamente, seguindo regras comuns em casos com corréus. As autoridades federais contestam parte dessas acusações, mas reconhecem dificuldades estruturais na unidade.
De acordo com as práticas estabelecidas no sistema federal, os tribunais podem impor ordens de “não contato” para evitar conluio, intimidação de testemunhas ou interferência no processo judicial.
Isso significa que, mesmo dentro do mesmo centro de detenção, Maduro e Flores provavelmente não podem se ver ou se comunicar diretamente, além de possíveis encontros controlados na presença de seus advogados.

Rotina de Maduro
O filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, deputado venezuelano, afirmou na segunda-feira (23) que o pai continua “de bom humor” e “muito forte”, acrescentando que ele se exercita diariamente. “Nicolasito”, como é conhecido, também disse que o ditador pode aparecer “mais magro e com aparência mais atlética”.
Ele também se referiu a Flores como um “primeiro combatente, firme e alerta” diante do processo legal que ambos enfrentam.
Como foi a operação que prendeu Maduro
Maduro foi capturado em 3 de janeiro de 2026, durante uma operação conduzida pelos Estados Unidos em Caracas, capital da Venezuela. A ação ocorreu durante a madrugada, e foi descrita por Washington como uma operação policial.
Segundo autoridades do governo americano, as motivações para a operação envolveram acusações de narcotráfico internacional.
Trump vinha pressionando Maduro a ceder o poder e o acusou de apoiar cartéis de drogas que Washington designou como grupos terroristas, alegando que eles eram responsáveis por milhares de mortes nos EUA ligadas ao uso de drogas ilegais.
Ação dos EUA gerou forte reação internacional e questionamentos jurídicos. Especialistas em direito internacional apontam dúvidas sobre a legalidade da operação, especialmente pelo uso de força em território estrangeiro.

O que pode acontecer agora
A audiência desta quinta não encerra o processo, mas é mais uma etapa relevante.
O juiz deverá decidir se o caso segue normalmente para julgamento, como serão tratadas as provas e se há base para pedidos da defesa, incluindo o arquivamento.
Enquanto isso, Maduro e Flores devem permanecer sob custódia nos EUA, aguardando os próximos desdobramentos do caso.
(Com informações de María Santana, da CNN Español, Vanessa Romeu e Christine Kiernan, da Reuters)
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Fonte : CNN