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Na semana que se inicia nesta segunda-feira (23), a agenda econômica brasileira será “especialmente movimentada”, segundo Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.

O “ponto de partida” é o boletim Focus, levantamento semanal publicado às segundas-feiras pelo qual o BC (Banco Central) apura as expectativas do mercado para uma série de indicadores.

Essa semana, a pesquisa “tem especial relevância diante das revisões de projeções de inflação e juros, impactadas pelos efeitos da Guerra no Irã”, explica Kawauti.

Nessa esteira, o mercado derreteu na sexta-feira (20), com o Ibovespa desabando 2,25%, aos 176.219,40 pontos, tocando a mínima de dois meses.

“Mercado hoje totalmente desancorado. Expectativas de inflação oscilando muito. Baixou uma neblina densa para as projeções de médio prazo. Isso eleva a volatilidade”, pondera o economista Robson Gonçalves, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Além da guerra, Gonçalves vê na política monetária – que tanto busca controlar a inflação como as expectativas sobre ela – parte do motivo pelo qual o mercado está “dirigindo na neblina”.

“Cenário de maior incerteza”

Ao decidir cortar a taxa básica de juros do país em 0,25 ponto, o Copom (Comitê de Política Monetária) agradou parte do mercado com uma mensagem “serena e cautelosa”.

O Banco Central não pode ser mais nervoso que o mercado. Ele passou serenidade – já é uma expressão que ele usou recentemente e usou novamente agora – e demonstrou serenidade”, pontuou Reinaldo Le Grazie, ex-diretor de Política Monetária do BC e sócio da Panamby Capital, em entrevista ao CNN Money.

Em meio a um cenário incerto por conta da guerra, o BC deu nome à incerteza global que o preocupa – citando Oriente Médio quatro vezes em seu comunicado – e optou por um corte mais cauteloso para dar partida no que chamou de “ciclo de calibração da política monetária”.

Mais analistas teriam saído plenamente satisfeitos não fosse um detalhe na comunicação da diretoria do BC: suas projeções de inflação.

Diante de um “cenário de maior incerteza”, nas palavras do colegiado, o Copom elevou suas estimativas de inflação para o ano de 2026 de 3,4% a 3,9%; enquanto as estimativas para o horizonte relevante – projeção futura que a autoridade monetária usa como referência para suas decisões – também foram elevadas de 3,2% a 3,3% no terceiro trimestre de 2027.

Apesar de a revisão ser condizente com o movimento que os economistas têm adotado, a projeção dada pelo BC é mais branda que a esperada pelo mercado.

“Parece que eles passaram a aceitar os custos de um choque de oferta e jogar a busca pela meta para o final de 2027. É uma mudança importante. […] Estão trabalhando com uma meta para 2026 acima dos 3% e jogando esse alvo para 2027-28. Isso é comum diante de choques de oferta, mas caberia ao CMN [Conselho Monetário Nacional] fazer”, questiona Robson Gonçalves, que vê uma potencial inflação de mais de 4% no horizonte relevante após o choque com a guerra.

Guerra embaralha o cenário e as expectativas

Expectativas se transmitem em preços. Desse modo, além da inflação em si, o Banco Central realiza seu trabalho de proteger o valor da moeda observando também o humor do mercado.

A “desancoragem das expectativas de inflação” que o Copom cita entre riscos inflacionários nada mais é do que um movimento de disparada e temor nas estimativas do mercado.

“Vejo uma desancoragem em curso, sobretudo no horizonte mais relevante para a política monetária”, diz Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Rena, cuja estimativa para inflação no horizonte relevante é de 3,5%, também acima do previsto pelo Copom.

O Focus da última segunda-feira [16] já mostrou uma alta importante da mediana do IPCA [Índice de Preços ao Consumidor Amplo] de 2026, para 4,1%, enquanto 2027 segue acima da meta, em 3,8%. Isso conversa com a leitura de que o choque não está restrito a um ruído de curtíssimo prazo”, pontua.

Segundo Angelo, mesmo sem a guerra o cenário já seria incerto.

“Nas nossas coletas proprietárias, alimentos já vinham rodando mais fortes do que boa parte do mercado imaginava. Muita gente trabalhava com uma inflação de alimentos mais comportada, enquanto nós já víamos uma dinâmica mais pressionada. Isso acaba contaminando o curto prazo e, por arrasto, também o médio prazo”, explica.

Fábio Romão, sócio da Logos Economia, não fala em desancoragem, mas um cenário “mais anuviado”, com a guerra e o petróleo trazendo maior incerteza ao médio prazo.

“Neste sentido, podemos elencar os fatores de pressão: (i) petróleo elevando diretamente os preços dos combustíveis; (ii) de forma indireta os custos de fretes (marítimos e terrestres) elevando o nível geral de preços; (iii) também indiretamente as esperadas altas de fertilizantes elevando os custos de alimentos”, elenca Romão, que também espera uma inflação maior que o BC para o terceiro trimestre de 2027, a 3,8%.

O ponto central é a duração do conflito, apontam os analistas ouvidos pelo CNN Money. Porém, a maior incerteza é essa, o que leva as casas a terem de projetar diversos cenários diferentes.

“É como se a gente tivesse que pensar no caminho que vai fazer, mas está muito turvo. Não sabe qual vai ser o caminho do petróleo daqui para frente e isso faz diferença nas projeções”, afirma Marcela Kawauti, cuja Lifetime Gestora de Recursos espera inflação de 4% no horizonte relevante.

Próximo Focus e ata do Copom

Novas expectativas de mercado serão publicadas pelo BC nesta segunda-feira (23). E pelo que sinalizam os analistas, a desancoragem deve seguir marcante.

“A expectativa de inflação pode subir, sim, muito por conta da inflação de oferta do cenário externo”, diz Ian Lopes, economista da Valor Investimentos, que espera inflação anualizada ainda entre 3% e 4% no terceiro trimestre de 2027.

Angelo ressalta que a divulgação “pode incorporar de forma mais completa o efeito do pós-Copom, do petróleo e da reprecificação recente”, reforçando que “o IPCA de fevereiro, de 0,7%, trouxe uma surpresa espalhada na inflação corrente, e a composição foi desconfortável”.

Na próxima semana, a agenda econômica brasileira será “especialmente movimentada”.

Para além de um Focus com mudanças relevantes, os economistas aguardam a ata do Copom – que trará maiores detalhes sobre a última decisão de juros -, que será divulgada na terça-feira (24); e a prévia da inflação de março, divulgada na quinta-feira (26), mesmo dia em que o BC apresenta seu relatório trimestral de política monetária. A ver.

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Fonte : CNN

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