Ao que parece, as conversas de mesa de bar mudaram. Entre um petisco e outro, termos como “gatilho”, “trauma”, “limites” e “responsabilidade afetiva” começaram a surgir com naturalidade.
A saúde mental, antes restrita aos consultórios médicos, virou tema de rodas de amigos, conteúdo nas redes sociais e, em muitos casos, virou até identidade. Mas o fenômeno, embora positivo em vários aspectos, também acende alertas.
Para entender esse movimento, a CNN Brasil conversou com Jair Soares dos Santos, psicólogo, fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT) e doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO), na Argentina.
Ele explica por que a terapia está tão popular, quais são os riscos da “estetização” do sofrimento e como a Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG) interpreta essa nova forma de lidar com as emoções no mundo contemporâneo.
Quando a saúde mental vira trend
Somente no TikTok, a hashtag #saudemental ultrapassa as 2 milhões de visualizações. Para Jair, o grande boom da terapia tem um efeito social essencial: reduz estigmas e amplia o acesso a uma linguagem emocional que, por muito tempo, foi elitizada ou silenciada. “A popularização da terapia traz um ganho enorme: aproxima as pessoas de recursos de cuidado interno e oferece linguagem emocional acessível”, afirma.
Mas a transformação da saúde mental em tendência também pode trazer distorções. Segundo o especialista, quando o sofrimento vira um produto cultural, o risco é esvaziar conceitos clínicos importantes. Termos que deveriam carregar profundidade emocional — como “trauma” ou “gatilho” — passam a ser usados de forma genérica.
“A terapia não é uma estética, é um compromisso com transformação profunda”, explica. Para a TRG, o perigo está justamente na “performance emocional”: quando o indivíduo fala sobre dor sem realmente entrar em contato com ela. Falar e elaborar, diz o psicólogo, são coisas bem diferentes.
Por que estamos nos abrindo tanto e em qualquer lugar?
A cena para muitos já é comum: alguém desabafa no bar aquilo que jamais diria em um consultório. Para Jair, isso acontece porque os códigos sociais mudaram. Ambientes informais criam sensação de horizontalidade. Diante disso, ninguém é especialista, mas todo mundo gosta de aconselhar.
“Em contextos assim, a revelação não surge pela busca de cura, mas pela busca de pertencimento. A fragilidade cria vínculo”, explica.
O profissional faz um alerta: o que se compartilha nesses espaços costuma ser uma “vulnerabilidade narrada, não processada”. Fala-se da história, mas não se acessa o que ficou gravado no corpo e no sistema emocional.
Conforme a sua explicação, a TRG reconhece o valor humano desse tipo de troca, que diminui a sensação de solidão interna, mas reforça que isso não substitui o trabalho terapêutico. Conversar conecta, mas a terapia transforma.
Os mitos do autocuidado pop
O autocuidado, para muitos, virou um mantra. Mas, como lembra Jair, grande parte do discurso atual romantiza o processo. “Um dos equívocos mais comuns é achar que autocuidado é sempre leve e agradável”, afirma. Na prática, cuidar de si envolve desconforto, como revisitar memórias, identificar padrões, romper vínculos, admitir autoenganos e estabelecer limites dolorosos.
Outro mito é o da autossuficiência. O psicólogo explica que muitas dores são relacionais por origem (surgiram em vínculos) e, por isso, não podem ser completamente elaboradas sozinhas. O suporte técnico é necessário quando a própria mente cria defesas para evitar o núcleo da dor.
Há também a confusão entre autocuidado e fuga. “Evitar o que dói não é cuidado, é anestesia”, diz. O caminho da TRG é o oposto: olhar diretamente para o que marcou o sistema emocional, para que a dor possa, enfim, se reorganizar.
Da vida real ao conteúdo: a emoção como identidade
Outro fenômeno contemporâneo chama atenção: a transformação da vida emocional em conteúdo. Desabafos viram posts e relatos viram vídeos. Para Jair, isso acontece porque a emoção se torna uma forma de organizar identidade: quem sofreu se apresenta como sobrevivente, quem venceu dores, como resiliente. “A narrativa vira persona”, explica.
Mas há um risco: cristalizar-se no papel da própria ferida. Para o especialista, a TRG diferencia expressar emoção de estar preso a ela. Mesmo quando a dor é verbalizada publicamente, isso não significa que foi elaborada internamente. “Não é a audiência que cura, mas sim o contato íntimo consigo mesmo”, afirma.
A necessidade de testemunho, porém, é legítima. O ser humano não quer sofrer sozinho. O desafio, segundo Jair, é que essa validação venha menos do externo e mais da própria reorganização emocional.
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Fonte : CNN