“Acho que terei que assumir o controle de Cuba. Seria uma grande honra”, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, na última segunda-feira (16), durante uma coletiva de imprensa na Casa Branca, acrescentando que “eu poderia fazer o que quisesse” com o país.
Diante dos recentes acontecimentos envolvendo a Venezuela e o Irã, poucos ousariam dizer o contrário. Além das palavras de Trump, fica claro que, para seu governo, é agora ou nunca.
A resistência que poderia ter surgido antes do “trumpismo”, após uma ação contra o regime cubano, está fraca hoje. O mundo e seus mecanismos de controle mudaram, e Cuba é um desses símbolos de um mundo e de uma região que não existem mais.
Primeiro, a Venezuela
Essa abordagem de “agora ou nunca” do governo Trump foi construída passo a passo, de maneira muito planejada e, até agora, eficaz.
Primeiro, as poucas fontes de apoio efetivas restantes para o regime cubano precisavam ser eliminadas. A primeira foi a Venezuela. Não é errado pensar que a Venezuela e Nicolás Maduro nunca foram o alvo principal de Trump ou do Secretário de Estado, Marco Rubio. O alvo sempre foi e é Cuba, por muitos motivos.
O apagão
Sem a Venezuela como aliada, uma parte significativa do fornecimento de petróleo bruto para a ilha foi cortada, deixando-a com poucas opções, porque o México também foi forçado a suspender seus embarques devido à pressão direta (ameaças de tarifas) de Trump sobre a presidente Claudia Sheinbaum.
O México enviava hidrocarbonetos sob duas modalidades: remessas de solidariedade (a quantidade enviada para a ilha nunca foi divulgada) e acordos comerciais. Ambas foram eliminadas nos primeiros meses deste ano.
Embora a presidente Sheinbaum tenha declarado sua discordância com a política de Washington em relação a Cuba, ela também não indicou nenhuma intenção de rompê-la.
O México iniciou a renegociação do USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá, na tradução livre) com seu vizinho, os EUA, nesta quarta-feira (18), e qualquer interrupção nesse processo poderia impactar negativamente os interesses mexicanos.
O país começou a enviar petróleo bruto para Cuba em 1993, durante o chamado “Período Especial”, após a ilha sofrer a perda de seu principal aliado, a União Soviética, em 1991, e necessitava urgentemente de apoio externo.
Ironicamente, enquanto isso acontecia, o então presidente Salinas de Gortari trabalhava com o presidente dos EUA, George H.W. Bush, para implementar o NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), que entrou em vigor em 1994.
O corte do fluxo de petróleo para Cuba teve consequências imediatas. É importante lembrar que, enquanto Trump discutia seus planos de “tomar o controle” de Cuba, a ilha sofria um apagão generalizado, o sexto em um ano e meio, em meio às crescentes restrições energéticas impostas por Washington.
Ainda não está claro se o apagão se deve unicamente à escassez de petróleo e derivados nas usinas ou à falta de manutenção, mas o momento é igualmente prejudicial para a população, que está cada vez mais desesperada e começa a protestar nas ruas, embora não em massa, porque vimos que os instrumentos de repressão do regime ainda estão funcionando — talvez não intactos, mas funcionando mesmo assim

De fato, uma das estratégias que emanam da Casa Branca é provocar agitação social, e o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, sabe que não pode agir com uma onda de repressão em larga escala que justifique e precipite uma intervenção mais decisiva e direta.
Enquanto tudo isso acontecia, em Havana, o Ministro do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro, Oscar Pérez-Oliva Fraga, anunciou mudanças na política para permitir que residentes cubanos no exterior e seus descendentes invistam e possuam empresas na ilha, o que também implicaria mudanças nas restrições dos EUA aos investimentos em Cuba.
No entanto, essa declaração, que há alguns anos ou meses poderia ter sido significativa, parece tímida e tardia à luz das palavras de Trump.
“O Escudo das Américas”
Outra parte da estratégia de Washington tem sido a de adquirir aliados regionais para a causa de Trump e, até agora, isso tem sido muito fácil.
Como raramente antes, entre os líderes latino-americanos atualmente no poder, há alguns que acompanham a movimentação do presidente americano.
A apresentação do chamado “Escudo das Américas”, realizada na Flórida, no início de março, é um exemplo claro disso: líderes e representantes de um total de 17 países latino-americanos, unidos para enfrentar a grande ameaça representada pelo narcotráfico e cujo epicentro, segundo Trump, é o México.

Os ausentes? México, Colômbia e Brasil. Não foi um erro ao enviar os convites, como se sugeriu em certo momento; essas coisas não acontecem, especialmente não nesse nível.
Foi uma mensagem direta para demonstrar o poder e a influência que os Estados Unidos exercem hoje sobre a região, que em certo momento pensou que poderia formar blocos anti-americanos, assim como fez com Cuba, um ponto de referência moral e ideológico para uma esquerda latino-americana que, devido a processos internos em seus próprios países e fatores externos, vem perdendo terreno.
Por que Cuba?
Cuba representa muitas coisas, símbolos do presente e do passado. Cuba é uma ferida aberta para Washington, para os milhares de exilados expulsos pela revolução, para aqueles que mantêm famílias na ilha e para aqueles que querem retornar.
A ilha caribenha representa uma das derrotas estratégicas dos EUA ao longo do século XX, uma época de bipolaridade global, da Guerra Fria e do estabelecimento da ideologia soviética bem diante do inimigo, com ameaças concretas como a Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, quando a inteligência americana revelou que a antiga União Soviética estava instalando mísseis nucleares na ilha.

Por outro lado, Cuba representa a resistência de muitos movimentos de esquerda latino-americanos contra o “imperialismo estadunidense”, tão vivo na América Latina, tão presente no peronismo, sandinismo, chavismo, correísmo e na Quarta Transformação.
Cuba é um símbolo tanto para a esquerda institucional, que formou governos, quanto para a esquerda radical, que formou grupos guerrilheiros, muitos com o apoio de Cuba.
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Fonte : CNN