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Apesar de estar a meio mundo de distância, o conflito dos Estados Unidos e de Israel com o Irã reverbera diretamente no bolso do consumidor. A guerra no Oriente Médio já passa de 20 dias e os reflexos no Brasil ficam cada dia mais evidentes.

Passam pelo Estreito de Ormuz – que é banhado por águas iranianas – cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. O cenário gera, por tanto, temor para o mercado de energia.

Nos primeiros sete dias de conflito, os combustíveis subiram marginalmente em relação às últimas métricas de fevereiro, segundo levantamento semanal da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

Agora, o diesel acumula disparada de 20% desde o dia em que os EUA e Israel atacaram o Irã. Na bomba, o preço médio do óleo ultrapassa os R$ 7.

Ações e reajuste

O IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação) destaca que os preços seguiram em alta mesmo com os esforços do governo para contê-los com subvenções e abatimento de impostos federais para o diesel.

Porém, o efeito ao consumidor depende da “estrutura de formação do preço do diesel comercializado no país, bem como das condições de suprimento e tributação ao longo de toda cadeia”, segundo nota conjunta de diversas entidades do setor.

Assinam o manifesto Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), Brasilcom (Associação das Distribuidoras de Combustíveis), Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes), Refina Brasil (Associação Brasileira dos Refinadores Privados), Sincopetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo) e Sindicom (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes).

“Neste setor, os estoques são, em geral, avaliados com base em preços correntes de mercado, o que pode influenciar os custos de reposição. As políticas de precificação, no entanto, são definidas individualmente por cada agente”, diz a nota do setor.

“Importante lembrar, ainda, que parte relevante do abastecimento nacional também vem de refinarias privadas e de importadores, os quais, diferentemente da Petrobras, não atuam na extração de petróleo no Brasil e praticam preços (de diesel A) sempre de acordo com as referências internacionais”, pontua.

Na prática, segundo levantamento do IBPT, o reajuste de R$ 0,38 por litro pela Petrobras nas refinarias teve maior peso, e os valores avançaram já no primeiro dia útil após a medida.

“Diante desse cenário, se faz necessária a adoção de providências, com a maior brevidade possível, de modo a evitar o agravamento dos riscos de desabastecimento nacional”, conclui a nota conjunta das entidades.

Questionado sobre o cenário, o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo tem “uma série de medidas” que podem ser adotadas sobre a guerra caso o impacto aumente sobre os combustíveis.

Temor de desabastecimento de diesel

A gasolina é quem traz o efeito mais direto ao consumidor, que abastece seus carros com esse combustível. Já o diesel – que tem se mostrado mais sensível ao choque – traz seu peso inflacionário por caminhos sinuosos, na carreta de um caminhão.

“O diesel sendo reajustado, você tem o preço do frete sendo reajustado. O frete sendo reajustado, provavelmente os preços dos alimentos”, elenca Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Rena, ressaltando que a alta do combustível contamina uma série de cadeias produtivas.

“No caso do Brasil, a gente calcula que o efeito total (direto mais indireto, gasolina, diesel e térmica mais cara em um ambiente que não está favorável à parte hídrica), pode chegar num peso dentro da cesta de um consumidor de 7% a 8%”, pontua.

O principal produto que o Brasil importa são combustíveis num geral, segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). Para suprir a demanda nacional, o país precisa comprar cerca de 30% do que consome no estrangeiro.

Sentindo o reflexo da guerra, o Sindicom enviou um ofício ao governo federal na quinta-feira (19) alertando sobre riscos de abastecimento de combustível no país.

Antes mesmo do alerta, o temor já ressoava, os preços do diesel subiam e o impacto era sentido por quem depende do combustível. Caminhoneiros ameaçaram, ao longo dos últimos dias, entrar em greve e paralisar a logística rodoviária nacional. Só o combustível caro impactando o preço final do frete já seria um problema. A paralisação traria uma incerteza ainda maior.

O governo se mobilizou para responder a situação e apresentou medidas que atendem às principais demandas da categoria, incluindo a fiscalização efetiva do piso mínimo do frete. Os caminhoneiros adiaram a greve e agora aguardam uma reunião com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.

George Santoro, secretário-executivo de Transportes, viu na crise uma “oportunidade” para promover “muitos avanços relevantes” e colocar em pauta a discussão de que “a infraestrutura necessita ter incentivos corretos”.

“Estamos correndo atrás de erros do passado que não tiveram planejamento. Mas ainda serão necessárias outras medidas para sanar isso em definitivo, senão todo ano vai ter problema. Tem que melhorar de maneira que haja competição racional”, ponderou Santoro à reportagem.

ANP, distribuidoras e Petrobras

Com a escalada das tensões no Oriente Médio e o risco de pressão sobre o mercado interno, a ANP declarou sobreaviso no abastecimento nacional e determinou o aumento imediato da oferta de combustíveis no país.

Um dos pontos mais contundentes da decisão recai sobre a Petrobras. A estatal foi notificada a recompor imediatamente a oferta após o cancelamento de leilões para reavaliar estoques.

Em resposta, a companhia disse “que irá analisar o teor completo da decisão e avaliar todos os detalhes e implicações envolvidas. A Petrobras sempre prestou e continuará prestando todas as informações e esclarecimentos solicitados pela ANP, com a qual mantém relação de respeito e colaboração, conforme é a obrigação da empresa perante seu órgão regulador”.

Em paralelo, o CNN Money apurou com fontes que a Petrobras teria reduzido em até 20% o volume de combustíveis que distribuidoras poderão comprar em abril, em relação ao que foi comprado em igual período do ano passado.

Questionado em entrevista exclusiva ao Hora H da CNN Brasil, o CEO da Vibra, Ernesto Pousada, afirmou nesta sexta-feira (20) que a estatal sinalizou que irá reduzir a cota mensal de distribuição de combustíveis para o mês de abril.

A estatal emitiu nota negando as afirmações. Procurada após os comentários do CEO da Vibra, a Petrobras reiterou que “está entregando o volume total contratado pelas distribuidoras”.

“Não houve qualquer alteração nas entregas de produto por parte das refinarias da Petrobras, que estão ocorrendo conforme planejado e alinhadas aos compromissos comerciais vigentes que são estabelecidos mês a mês com as distribuidoras. Todos os contratos assumidos pela companhia para março e abril serão cumpridos de forma integral”, diz a nota.

“A Petrobras está operando suas refinarias em capacidade máxima e otimizando todas as suas operações logísticas, a fim de ampliar a oferta de derivados e antecipar entregas às distribuidoras, cumprindo integralmente seu papel no abastecimento do país”, pontua.

Regulação

O governo também buscou agir na frente da fiscalização. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que mais de 53 distribuidoras foram multadas nos últimos dias.

As autuações ocorreram no âmbito das fiscalizações em cooperação entre ANP, Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), PF (Polícia Federal), Ministério da Justiça, Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) e com apoio dos Procons estaduais e municipais.

Silveira anunciou os números em evento ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que criticou a busca por lucro sobre combustíveis “às custas do sofrimento”.

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Fonte : CNN

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