wp-header-logo.png

A soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta em seu apartamento no Brás, região central de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Inicialmente tratada como suicídio, a ocorrência evoluiu para um inquérito de feminicídio qualificado e fraude processual.

O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, marido de Gisele, está preso preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes desde 18 de março. Ele foi indiciado pela Polícia Civil e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.

De suicídio a feminicídio

A mudança de rumo na investigação ocorreu após a análise de laudos periciais, depoimentos e evidências extraídas de dispositivos eletrônicos.

Segundo relatório da Polícia Civil e denúncia do MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo), há um conjunto consistente de elementos que afastam completamente a hipótese de suicídio.

Entre os pontos centrais estão contradições do tenente-coronal, indícios de manipulação da cena do crime e sinais claros de violência anterior à morte.

A lacuna de 30 minutos

De acordo com a versão apresentada pelo tenente-coronel, ele teria ouvido o tiro poucos instantes após sair do quarto da esposa.

No entanto, uma vizinha relatou ter escutado o estampido às 7h28, enquanto o chamado à polícia só ocorreu cerca de 30 minutos depois.

Para os investigadores, esse intervalo foi suficiente para que o suspeito alterasse a cena do crime e acionasse contatos pessoais antes de buscar ajuda oficial.
Indícios de cena forjada

Os primeiros socorristas já identificaram inconsistências no local. Um bombeiro relatou que a arma estava na mão da vítima de forma “estranha” e foi retirada com facilidade incomum.

Além disso, a ausência do cartucho da munição disparada levantou suspeitas de ocultação de provas.

A análise do padrão de sangue também indicou que o corpo pode ter sido movimentado após o disparo, reforçando a hipótese de encenação.

Provas periciais e sinais de violência

O exame necroscópico confirmou que o disparo foi feito com a arma encostada na cabeça da vítima, em trajetória incompatível com um tiro autoinfligido.

Além disso, peritos encontraram lesões no rosto e no pescoço, incluindo marcas de dedos e arranhões, indicando que Gisele foi imobilizada antes de ser morta. Hematomas na região dos olhos também apontam para agressões anteriores ou simultâneas ao disparo.

Vestígios apagados

Segundo o inquérito, o tenente-coronel tomou banho antes da realização de exames periciais, contrariando orientações e eliminando possíveis vestígios.

Ainda assim, exames com luminol identificaram marcas de sangue em roupas, no banheiro e em outros pontos do apartamento.

A perícia concluiu que houve tentativa deliberada de limpar o local e dificultar a apuração dos fatos.

Veja imagens da reconstituição do crime:

Relação marcada por abuso

Mensagens extraídas dos celulares revelaram que o relacionamento era marcado por controle, violência psicológica e episódios de agressão.

De acordo com the MPSP, o suspeito mantinha uma postura de dominação, se autodenominando “macho alfa” e exigindo submissão da vítima.

Veja mensagens trocadas entre o casal:

Há registros de ameaças, coerção sexual e tentativas de isolamento. Dias antes da morte, Gisele havia comunicado que queria se separar, o que é apontado como possível motivação para o crime.

A prisão

A Justiça comum aceitou a denúncia por feminicídio e determinou que o caso vá a júri popular, destacando a impossibilidade de suicídio e o histórico de violência.

Já a Justiça Militar sustenta competência para julgar o crime de fraude processual, relacionado à suposta manipulação da cena.

Apesar das disputas jurídicas, a prisão preventiva foi mantida, sob o argumento de que o alto cargo do acusado poderia influenciar testemunhas e comprometer a investigação.

Defesa nega crime

A defesa do tenente-coronel afirma que Gisele tirou a própria vida e contesta a condução do caso. Os advogados alegam conflito entre decisões judiciais e classificam a investigação como inconsistente.

O suspeito também nega qualquer agressão e sustenta que está sendo alvo de julgamento público antecipado.

Leia na íntegra a nota da defesa:

“O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o Tenente-Coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.

Ante o recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.

Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.

Informa, por fim, que já ajuizu Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.

Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.

A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.

Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos.”

 

*Sob supervisão de Pedro Osorio

source
Fonte : CNN

Destaques Informa+

Relacionadas

Menu