A qualidade da água nos rios da Mata Atlântica segue em nível preocupante e sem avanços consistentes. É o que indica o relatório Retrato da Qualidade da Água nos Rios da Mata Atlântica, lançado pela Fundação SOS Mata Atlântica nesta semana do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março.
O estudo aponta a estagnação nos indicadores e redução dos pontos classificados como de boa qualidade. Com base em dados coletados entre janeiro e dezembro de 2025, quase 80% dos locais monitorados apresentaram qualidade regular, sinalizando impacto significativo da poluição e necessidade de tratamento para diferentes usos.
Segundo o relatório, apenas 3,1% dos pontos de água foram considerados bons, enquanto 78,4% ficaram na categoria regular, 15,4% como ruins e 3,1% como péssimos. Nenhum atingiu o nível considerado ótimo.
Produzido pelo programa Observando os Rios, iniciativa de ciência cidadã voltada ao monitoramento da água, o levantamento analisou 1.209 amostras em 162 pontos de coleta, distribuídos por 128 rios em 86 municípios de 14 estados. Ao todo, 133 grupos voluntários participaram do processo.
A avaliação utiliza ainda o IQA (Índice de Qualidade da Água), indicador internacional que considera parâmetros físicos, químicos e biológicos, além de características como odor, espuma e turbidez. As classificações são feitas a partir de cinco categorias, sendo: ótima, boa, regular, ruim e péssima.
De acordo com o indicativo, os rios classificados como regulares já apresentaram impactos ambientais que podem comprometer seu uso, enquanto níveis ruins e péssimos indicam poluição crítica, com riscos à biodiversidade e à saúde pública. Veja:

A comparação com o ciclo anterior é preocupante. Entre os pontos monitorados em anos consecutivos, houve queda no número de locais com qualidade boa e aumento dos classificados como regulares e ruins. Cinco pontos permaneceram na pior categoria, sem melhora.
Embora o quadro geral seja negativo, o relatório aponta melhorias pontuais, como no rio Betume, em Pacatuba (SE), que passou de regular para bom, enquanto o rio Capivari, em Florianópolis (SC), e o córrego Itaguaçu/Itaquanduba, em Ilhabela (SP), evoluíram de ruim para regular.
Entre os casos de agravamento, trechos de rios como o Jaboatão (PE), o Paraíba do Sul (RJ) e o Tietê (SP) passaram de regular para ruim, tornando a água imprópria para diversos usos. Já áreas críticas, como os rios Pinheiros e Jaguaré, na capital paulista, e o Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul (SP), seguem sem melhora concreta.
O que causa a piora da qualidade da água?
O relatório aponta o saneamento básico precário como principal entrave. Apesar da meta de universalização até 2033, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, e aproximadamente metade da população não conta com coleta e tratamento de esgoto.
A degradação das florestas também contribui para a piora da qualidade da água. A perda de matas ciliares reduz a capacidade de retenção de sedimentos e filtragem de poluentes, além de comprometer a regulação do fluxo hídrico.
Além disso, fatores diretamente relacionados a expansão urbana, obras de infraestrutura, lançamento irregular de esgoto e mudanças no uso do solo favorecem o cenário preocupante.
Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e chuvas intensas, também agravam o cenário ao alterar o funcionamento das bacias e aumentar a concentração de poluentes.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o volume de investimentos globais em atividades que degradam a natureza ainda supera, com ampla margem, os recursos destinados à sua proteção.
Atualmente, o programa Observando os Rios reúne mais de dois mil voluntários em 14 estados, realizando monitoramento mensal da qualidade da água. A metodologia utilizada já foi validada por estudos científicos internacionais, que apontam alta convergência com medições oficiais, como as realizadas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo.
*Sob supervisão de Tonny Aranha
source
Fonte : CNN