wp-header-logo.png

O Brasil pode perder espaço no mercado europeu se não resolver um problema antigo: comprovar com precisão por quais fazendas o boi passou antes de chegar ao frigorífico.

Nenhuma das plantas frigoríficas que tem autorização para exportar para a União Europeia, e opera dentro da Amazônia Legal, possui controle total sobre a cadeia produtiva da carne. Falha que pode se tornar um impedimento para vender ao bloco a partir de 2027.  O levantamento feito pelo Radar Verde serve como “termômetro crítico” diante da nova Regulamentação Europeia contra o Desmatamento, EUDR, que entrará em vigor em 30 de dezembro de 2026.  

Das quase 200 plantas frigoríficas que operam dentro da “Amazônia Legal” só 15 tem habilitação para vender a União Europeia, todas estão em MT

“Mato Grosso se destaca porque consegue mostrar que tem um controle sanitário eficiente para atender todas as exigências da União Europeia e assim conquistar as habilitações de um mercado muito exigente”, diz Camila Trigueiro, pesquisadora do Imazon e Radar Verde.  

Em 2024 o estado tinha oito plantas frigoríficas, habilitadas a exportar para UE, e capacidade para abater 5.870 animais por dia.  Em 2025 o número saltou para 15 unidades, pertencentes a oito empresas, e a capacidade total de abate quase dobrou: 11.250 animais por dia.

O estado, dono do maior rebanho bovino do país, tem 21 plantas habilitadas a vender para a UE. Mas são essas 15 dentro da Amazônia Legal que foram destacadas no estudo.

Gargalos na Rastreabilidade e o Risco de “Lavagem de Gado”

O principal gargalo apontado está na rastreabilidade dos fornecedores indiretos, fazendas de cria e recria, onde não foram apresentadas evidências de monitoramento socioambiental.  

A pecuária de corte é feita em etapas.

Algumas fazendas se dedicam exclusivamente a cria, a primeira etapa do processo produtivo. Trabalham com fêmeas selecionadas e touros reprodutores para a produção de bezerros.

Já as fazendas de recria cuidam da etapa seguinte, compram os bezerros e tratam até se tornarem garrotes ou boi magro.

A etapa final é conhecida como engordaouterminação. O boi magro, ou garrote, é tratado até atingir o peso ideal de abate. Algumas vezes essa engorda acontece em sistemas de confinamento ou semiconfinamento com uso de ração e concentrados.

Apagão de origem

Embora 12 das 15 plantas demonstrem alto controle sobre os fornecedores diretos, que fazem a engorda e entregam o animal pronto para o abate, o “apagão” dos dados está sobre a origem dos animais nas etapas de cria e recria.  

Segundo o relatório são nas etapas iniciais que podem acontecer a “lavagem de gado”.  A prática consiste em pegar o bezerro ou a recria de áreas desmatadas e levá-los para fazendas intermediárias, de terminação, e assim “limpar” o rastreio antes da venda final.  

A nova Regulamentação Europeia contra o Desmatamento, a EUDR, vai exigir sistemas de rastreabilidade capazes de identificar com geolocalização todas as propriedades por onde os animais passaram.

Nenhuma das empresas frigoríficas questionadas pelo Radar Verde disse o que pretende fazer, ou como fazer, para se enquadrar à nova exigência que entra em vigor em 30 de dezembro de 2026, para grandes empresas, e a partir de 30 de junho de 2027 para pequenas e microempresas.  

Atualmente a indústria tem acesso ao GTA, a Guia de Trânsito Animal, ao receber os animais que serão abatidos.  

Em nota, a Abiec (Associação das Indústrias Exportadoras de Carne) disse que é exigido pela iniciativa que as indústrias tenham rastreabilidade completa de sua cadeia de fornecimento, ao mesmo tempo em que não há transparência nos dados públicos de trânsito animal para que se tenha esse controle.  

A entidade explica que o sistema oficial de rastreabilidade, que controla o trânsito de animais através das GTAs, pertence aos órgãos executores, ou seja, às agências de defesa animal de cada um dos estados brasileiros. E nem sempre as informações são públicas ou acessíveis para os frigoríficos.  

“Ainda não se tem muita transparência sobre os dados que seriam necessários para a indústria conseguir controlar esses fornecedores indiretos. Para isso eles precisariam conhecer quem é o fornecedor do seu fornecedor”, comenta a pesquisadora Camila Trigueiro. 

O relatório do Radar Verde sugere a integração das bases de dados da Guia de Trânsito Animal, GTA, e do Cadastro Ambiental Rural, CAR, para cruzar dados de movimentação do gado com alertas de desmatamento em tempo real, permitindo que o frigorífico enxergue o animal desde o nascimento. Mas para isso será preciso mudanças na lei.  

“É preciso mais transparência do setor público a respeito dessa movimentação tornando as informações das GTAs acessíveis. Obviamente que preservando os dados dos produtores, mas identificando a origem dos animais em cada etapa de produção. Assim os frigoríficos conseguiriam trabalhar melhor com as informações e ter controle” completa Camila Trigueiro.  

O Radar Verde criou uma pontuação, de 0 a 100, para as práticas de rastreabilidade das indústrias frigoríficas. Todas ficaram com “score” abaixo de 50 pontos principalmente por falta de comprovação sobre os fornecedores indiretos.

  • Foi considerada de “baixa eficácia” a rastreabilidade feita pela: 

Marfrig: Várzea Grande;   

JBS: Diamantino, Confresa, Colíder, Araputanga, Pedra Preta, Barra Do Garças, Pontes e Lacerda,  

Minerva: Mirassol e Paranatinga 

Frialto: Matupá 

Naturafrig, Barra do Bugres  

Agra Agroindustrial de Alimentos: Rondonópolis 

  • E com eficácia muito baixa, “score” zero, porque não comprovaram a rastreabilidade dos fornecedores indiretos e nem diretos: 

Pantaneira Indústria e Comércio de Carnes e Derivados: Várzea Grande 

Fortunceres S.A: Tangará Da Serra 

A CNN entrou em contato com todas as empresas citadas no relatório, perguntando o que pretendem fazer para atender às novas exigências da UE contra o desmatamento. Regras que não vão se restringir a quem opera na Amazônia Legal e nem apenas para carne bovina, e sim a todos que atendem o bloco europeu. O Regulamento Europeu contra o Desmatamento foi aprovado em 2023 e obriga os importadores do bloco a comprovarem que produtos como soja, cacau, café e madeira não contribuíram para o desmatamento após dezembro de 2020. 

Até a publicação dessa reportagem apenas a Minerva se manifestou. Em nota a empresa diz: “que faz o monitoramento de 100% dos fornecedores diretos em toda a América do Sul. Em relação aos fornecedores indiretos a companhia tem avançado por meio de iniciativas próprias, como os protocolos de rastreabilidade, ferramentas para monitoramento e ações contínuas de engajamento ampliando a visibilidade da cadeia, como o Programa Reconecta voltado à requalificação de fornecedores. A Minerva registrou avanços sólidos na aplicação de protocolos de rastreabilidade, com aumento expressivo no volume de animais monitorados”.

O espaço continua aberto as empresas citadas. Assim que novos posicionamentos chegarem essa reportagem será atualizada. 

 

 

source
Fonte : CNN

Destaques Informa+

Relacionadas

Menu