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A indústria da moda, uma das cadeias produtivas mais relevantes da economia global e latino-americana, vem ampliando a pressão sobre os recursos hídricos em diferentes etapas da produção, desde o cultivo de matérias-primas até o acabamento das peças. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que o setor é responsável por cerca de 20% da poluição global da água doce¹, um indicador que tem levado empresas e especialistas a reavaliar seus modelos produtivos.

O tema ganha relevância em um cenário em que a disponibilidade de água se consolida como um dos principais desafios econômicos e ambientais do século XXI. Nesse contexto, a gestão eficiente desse recurso passa a ser vista não apenas como uma questão ambiental, mas também como um fator estratégico para a competitividade industrial.

Na América Latina, onde o setor têxtil desempenha um papel importante na geração de emprego e renda, o avanço de soluções que reduzam a pegada hídrica começa a se consolidar como parte da agenda de transformação da cadeia produtiva.

 

O consumo de água começa na matéria-prima

O impacto hídrico da indústria da moda tem início ainda na produção de fibras. O algodão, uma das matérias-primas mais utilizadas globalmente, concentra uma parcela significativa desse consumo.

A produção de um quilo de algodão pode demandar entre 7.000 e 29.000 litros de água². Esse volume contrasta com o necessário para culturas alimentares, como cereais, que utilizam cerca de 1.000 litros por quilo³.

Além da etapa agrícola, os processos industriais também ampliam o consumo. O tingimento de tecidos, por exemplo, pode exigir até 150 litros de água por quilo de material produzido⁴.

Outro ponto crítico é o tratamento de efluentes. Na América Latina, onde o setor têxtil desempenha um papel econômico relevante, a região enfrenta desafios semelhantes à tendência global, em que cerca de 80% das águas residuais são descartadas sem tratamento adequado em rios e mares, segundo o Banco Mundial⁵, o que amplia os impactos ambientais da atividade.

 

A tecnologia ganha papel estratégico na redução do consumo

A pressão sobre os recursos hídricos tem acelerado a adoção de tecnologias voltadas à eficiência produtiva. Empresas dos setores têxtil e de impressão vêm investindo em soluções que reduzem etapas, insumos e desperdícios ao longo da cadeia produtiva.

A empresa japonesa Epson faz parte desse movimento com sistemas de impressão digital desenvolvidos para substituir processos tradicionais de tingimento, que dependem de grandes volumes de água e múltiplas etapas químicas.

Nos métodos convencionais, o tingimento envolve pré-tratamento do tecido, aplicação de corantes, fixação a vapor e sucessivos ciclos de lavagem para remoção de resíduos. Já nas soluções digitais, como as impressoras da série Monna Lisa, desenvolvidas pela Epson, o uso de tintas pigmentadas permite a aplicação direta da cor na superfície do tecido, com fixação por calor, reduzindo — e, em alguns modelos, eliminando — processos intensivos em água, como lavagem e vaporização.

Segundo dados da empresa, esse tipo de tecnologia pode reduzir o consumo de água em até 97% em comparação com processos tradicionais⁶. A simplificação do fluxo produtivo também contribui para a redução de efluentes e da carga química associada ao tratamento posterior.

 

A digitalização muda a lógica de produção e reduz desperdícios

A incorporação da impressão digital também altera a lógica industrial do setor da moda. Em vez de grandes volumes produzidos antecipadamente, o modelo passa a permitir a produção sob demanda, com tiragens menores e maior precisão no uso de matérias-primas.

Esse formato reduz perdas associadas à superprodução, prática comum em cadeias tradicionais, e melhora a eficiência no uso de recursos naturais e insumos.

Outro efeito é a descentralização da produção. Equipamentos mais compactos possibilitam a instalação próxima aos centros de consumo, encurtando as cadeias logísticas, reduzindo o transporte e contribuindo para um menor impacto ambiental ao longo da cadeia de valor.

A reciclagem têxtil avança com tecnologias de baixo impacto hídrico

A economia circular também vem ganhando espaço como resposta estrutural aos desafios ambientais do setor. Tecnologias de reciclagem têxtil têm ampliado a capacidade de reaproveitamento de resíduos e peças descartadas.

Entre essas soluções está a tecnologia Dry Fiber, desenvolvida pela Epson⁷, que permite desfibrar roupas usadas e sobras industriais para a produção de novos materiais sem o uso intensivo de água.

O processo atua em duas frentes críticas da indústria: ao reduzir a necessidade de novas fibras e diminuir o consumo de água associado à produção têxtil. A proposta também está alinhada aos princípios da economia circular, que buscam prolongar o ciclo de vida dos materiais e reduzir o descarte.

A aplicação dessas soluções já alcança segmentos de maior valor agregado. O designer japonês Yuima Nakazato utilizou materiais produzidos com essa tecnologia em coleções apresentadas na Semana de Alta Costura de Paris, demonstrando a viabilidade técnica e criativa do modelo.

 

A sustentabilidade avança como fator competitivo

A incorporação de novas tecnologias e processos produtivos indica uma mudança estrutural na indústria da moda, com a sustentabilidade deixando de ser um diferencial para se tornar um requisito competitivo.

A redução do consumo de água, combinada à eficiência operacional, passa a integrar cada vez mais as decisões estratégicas das empresas, especialmente em regiões onde o setor desempenha um papel relevante na economia.

Nesse cenário, a transformação da cadeia de valor têxtil tende a avançar à medida que inovação, regulação e demanda do consumidor convergem para modelos produtivos mais eficientes e com menor impacto ambiental.

 

Referências
1.ONU News. Indústria da moda é responsável por 20% da poluição da água. Disponível em: https://news.un.org/es/story/2019/04/1454161.
2.Florida State University. Clothed in Conservation: Fashion & Water.
3.University of British Columbia. Water and Agriculture: Harvesting Water Before Harvesting the Crop.
4.Decathlon Sustainability. Why does it take so much water to make a cloth?
5.Banco Mundial, From Waste to Resource : Shifting Paradigms for Smarter Wastewater Interventions in Latin America and the Caribbean
6.Epson / Fuluhashi Environmental Institute. Report on Direct Water Input in Digital Textile Printing, 2024.
7.Dry Fiber Technology.

source
Fonte : CNN

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