A decisão de retirar de Senegal o título da Copa Africana de Nações (AFCON) mostra o quão desconectados da realidade se tornaram os dirigentes do futebol.
Há 59 dias, o capitão senegalês Sadio Mané ergueu o troféu da AFCON acima da cabeça, enquanto confetes dourados caíam sobre seus companheiros exaustos.
Também foi há 59 dias que jogadores de Marrocos esconderam o rosto nas mãos, sem querer encarar a derrota em uma das finais mais dramáticas da história recente do futebol.
Apesar da polêmica e dos vários momentos tensos naquela noite memorável em Rabat, no Marrocos, a final havia terminado. Um time celebrou, o outro saiu devastado — como costuma acontecer no esporte de alto nível.
Mas agora, quase dois meses depois, dirigentes reunidos em uma sala decidiram reverter o que aconteceu no Estádio Príncipe Moulay Abdellah.
A decisão sem precedentes veio de forma inesperada. A Confederação Africana de Futebol (CAF) anunciou, na noite de terça-feira, durante jogos da Liga dos Campeões da Europa, que concedeu vitória por 3 a 0 a Marrocos na final, declarando o país como campeão da AFCON.
O comunicado chocou o mundo do futebol e reforça a percepção de que os organizadores estão distantes da realidade do jogo.
O que aconteceu na final?
Para entender a decisão, é preciso relembrar a partida disputada há oito semanas.
O jogo ficou marcado pela decisão de jogadores de Senegal de deixar o campo em protesto contra a marcação de um pênalti para Marrocos nos minutos finais do tempo regulamentar, quando o placar estava 0 a 0.
A marcação ocorreu pouco depois de um gol senegalês ter sido anulado de forma controversa, o que gerou confusão em campo e nas arquibancadas.
Em cenas marcantes, o técnico Pape Thiaw ordenou que seus jogadores deixassem o gramado como forma de protesto. Parte do elenco seguiu para o vestiário, enquanto outros tentaram acalmar a situação.
Após longa paralisação, os jogadores de Senegal voltaram ao campo e assistiram Brahim Díaz desperdiçar o pênalti de forma impressionante.
Na prorrogação, Senegal marcou o gol da vitória por 1 a 0 e conquistou o título pela segunda vez.
O contexto também inclui uma desconfiança histórica no futebol africano, especialmente entre federações e a própria CAF. Durante o torneio, houve críticas de que Marrocos estaria sendo favorecido pela arbitragem.
Tudo isso contribuiu para o clima da final.
As consequências
Inconformada com a derrota, a federação marroquina afirmou que avaliaria medidas legais contra a saída temporária de Senegal de campo, alegando impacto direto no jogo.
Em janeiro, a CAF aplicou punições a jogadores e membros das comissões técnicas das duas seleções pelos incidentes.
Parecia o fim do caso. No entanto, após recurso de Marrocos, a CAF decidiu reverter o resultado, alegando que Senegal “abandonou” a partida ao deixar o campo.
A entidade citou o Artigo 82 do regulamento, que prevê derrota para equipes que se recusam a jogar ou deixam o campo sem autorização.
Mesmo assim, Senegal retornou e concluiu a partida, vencendo por 1 a 0.
A federação marroquina chegou a se distanciar da decisão, afirmando que não pretendia contestar o desempenho esportivo das equipes. Um novo posicionamento é esperado.
Já Senegal anunciou que vai recorrer à Corte Arbitral do Esporte (CAS), classificando a decisão como injusta.
Interferência fora de campo
Enquanto dirigentes trocam recursos e comunicados, jogadores de Senegal voltaram às redes sociais para relembrar as comemorações do título.
“Sabemos o que vivemos naquela noite em Rabat. E ninguém pode tirar isso de nós”, escreveu o meio-campista Idrissa Gueye.
Em Marrocos, a decisão pode ser celebrada por alguns, ainda que com sensação de vazio, já que o resultado em campo já havia sido vivido de outra forma.
Foi Senegal quem levantou o troféu e celebrou com desfile nas ruas da capital. Já Marrocos passou semanas lidando com a derrota.
O caso ainda deve se arrastar no CAS por meses. Mas, independentemente de decisões administrativas, o que aconteceu após o apito final dificilmente será apagado.
O futebol se decide no campo. Tentativas de mudar isso tendem a afastar torcedores do jogo.
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Fonte : CNN