Sancionado em 2020, o marco legal do saneamento já teve metade do prazo percorrido para a universalização dos serviços de água e esgoto, o que espalha dúvidas sobre a capacidade de alcance das metas fixadas até 2033.
No caso das concessões operadas pela Iguá Saneamento, não há chance de falhar com esses compromissos, segundo o CEO da empresa, René Silva.
“Temos plena convicção de que, nas áreas onde atuamos, atingiremos a meta [em 2033]”, disse em entrevista exclusiva à CNN.
No cargo há seis meses, o executivo acumula passagens por outras grandes companhias de infraestrutura, como a Hidrovias do Brasil e a Auto Raposo Tavares.
À frente de operações no Rio de Janeiro e Sergipe, além de uma PPP (Parceria Público-Privada) assumida recentemente no oeste do Paraná, a Iguá resolveu focar em cidades com mais de 200 mil concessões e admite interesse na privatização da estatal mineira Copasa.
Leia os principais da entrevista:
CNN: O marco legal do saneamento, sancionado em 2020, prevê a universalização dos serviços até 2033. Já se passou metade do prazo. Vamos atingir a meta definida em lei?
René Silva: A Iguá cumpre todos os contratos e as curvas [de universalização] com as quais se compromete. Temos plena convicção de que, nas áreas onde atuamos, atingiremos a meta [em 2033].
Quando olhamos o setor, como um todo, fala-se em R$ 700 bilhões a R$ 800 bilhões de investimentos necessários. Haverá uma pressão importante sobre os municípios pelo cumprimento da universalização.
Vejo um processo natural de consolidação — de municípios entrando juntos, respeitando todas as idiossincrasias, mas com a formação de blocos para cumprir o marco legal.
CNN: A Iguá assumiu, em 2021, a concessão de um dos blocos de saneamento no Rio de Janeiro. Quais são os avanços e dificuldades desde então?
Silva: Já investimos R$ 1 bilhão no Rio. Entregamos a ETE da Barra da Tijuca, que beneficia 1 milhão de pessoas em 19 bairros da zona sudoeste, no fim do ano passado. É um passo muito importante no processo de esgotamento sanitário.
Outra obra absolutamente relevante é a dragagem do Complexo Lagunar, que vai remanejar mais de mil piscinas olímpicas de sedimentos do fundo das lagoas para melhorar a qualidade das águas. É um investimento de R$ 250 milhões.
Conseguimos melhorar o nível de oxigenação de 5% para 14% em algumas regiões. Várias espécies que haviam desaparecido começaram a voltar.
Tudo isso, associado à implantação do coletor de tempo seco, faz com que o aumento da qualidade de vida, do esgotamento sanitário no nosso bloco, seja bastante perceptível. Também estamos avançando muito com a entrada nas comunidades. Existe um aspecto que é a “licença social” para operarmos.
CNN: A propósito, qual é a dificuldade de levar saneamento em áreas mais vulneráveis do Rio, em que há um forte problema de segurança pública?
Silva: Tomamos muito cuidado em como fazer. Obviamente, para fazer essas ligações, precisamos comunicar adequadamente e estarmos atentos às questões de segurança.
Não interferimos na dinâmica das comunidades, mas elas acabam percebendo o valor do serviço. Ter água de qualidade, ter esgotamento sanitário é percebido dentro da comunidade como um bem precioso.
CNN: A Iguá assinou no fim de 2024 o contrato de concessão para operar em 74 municípios de Sergipe, com investimentos superiores a R$ 6 bilhões. Qual tem sido o desempenho?
Silva: Um desafio importante no estado é resolver o problema histórico de falta d’água. Iniciamos obras emergenciais de adutoras para levar água a regiões com déficit hídrico, com intermitência muito forte e por longos períodos.
Trouxemos para o começo do contrato investimentos de água que estavam previstos um pouco mais para frente. E lançamos um Plano Verão, no qual investimos mais de R$ 100 milhões para reforçar o abastecimento, aumentar a reservação de água e minimizar os efeitos da intermitência. Fomos bem sucedidos. No Carnaval, inclusive, a resiliência hídrica foi muito positiva. Onde historicamente faltava água, não faltou.
CNN: A privatização da Copasa, em Minas Gerais, interessa à Iguá?
Silva: Enxergamos com bons olhos. A Iguá mantém uma postura bastante diligente em todas essas tratativas de privatização. Nossa visão estratégica está muito direcionada para concessões que sejam maiores — cidades com mais de 200 mil habitantes.
Como o cenário macroeconômico está mais desafiador, os juros estão muito altos, temos um cuidado claro para planejar investimentos que realmente façam sentido dentro da companhia.
É um processo que realmente faz sentido do ponto de vista da Copasa e que a gente aqui olha de uma forma que conecte com a nossa estratégia.
CNN: Pretendem entrar nas PPPs da Saneago? Estão de olho em outros projetos? Quais?
Silva: Fazemos uma análise muito criteriosa. Repito: o cenário macroeconômico é desafiador e temos muitos investimentos adiante. Ganhamos leilões grandes: são 74 municípios em Sergipe e um contrato ainda no início. Assinamos recentemente a PPP de Iguaçu (28 municípios na região oeste do Paraná). No Rio de Janeiro, estamos há apenas quatro, cinco anos. Ou seja, ainda temos 30 anos de concessões muito boas pela frente.
Só com essas operações a gente obtém crescimento de dois dígitos todos os anos. E dobra o tamanho da companhia a cada três ou quatro anos. Então, isso faz com que também tenhamos de pensar do ponto de vista interno: estruturar a empresa dentro de uma visão de alocação adequada de capital, ganhos de eficiência, dado o cenário macroeconômico.
Estamos olhando todos os leilões com muito critério. As PPPs são uma forma de investimento com previsão de receita mais clara porque existe uma contraprestação [do setor público]. Isso traz uma atratividade, eu acho que um pouco melhor, para as PPPs.
Na nossa estratégia, vamos refinando o nosso portfólio. O que fizer sentido do ponto de vista de sinergia geográfica, a gente também vai entrar. Podemos ter um olhar para consolidações. Esse processo de ajuste de ativos acontecerá naturalmente no mercado de saneamento.
CNN: Algumas empresas têm falado em uma “inflação do saneamento”, uma alta de custos de mão de obra, de fornecedores de equipamentos e de materiais por causa do mercado mais aquecido nos últimos anos. A Iguá está sentindo isso?
Silva: Uma característica positiva do saneamento é que se trata de um setor em que você consegue fazer previsões mais a longo prazo. Há curvas contratuais de investimento e a gente sabe o que precisa fazer para atingir essas curvas. O nosso mantra na Iguá é planejar, contratar e executar com excelência.
Obviamente o mercado está aquecido. Mas, a partir do momento em que planejamos com excelência, conseguimos pensar em um futuro mais amplo e trazer parceiros que também tenham uma relação de médio e longo prazo conosco.
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Fonte : CNN