Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do ex-presidente cubano Raúl Castro, apareceu pela primeira vez ao lado do presidente cubano Miguel Díaz-Canel em dois eventos públicos, levantando questionamentos, segundo analistas, sobre seu papel na liderança de Cuba.
A aparição acontece em um momento em que a ilha enfrenta apelos por mudança de regime por parte dos Estados Unidos.
Na manhã de sexta-feira (13), Rodríguez Castro participou de uma reunião que Díaz-Canel realizou com líderes do Partido Comunista de Cuba e do Conselho de Ministros.
Mais tarde, ele compareceu a uma coletiva de imprensa onde Díaz-Canel abordou as crises socioeconômicas da ilha e confirmou que seu governo havia conversado com os EUA sobre a pressão que Washington exerce sobre Havana desde a década de 1960 e que se intensificou nos últimos meses.
As aparições de Rodríguez Castro ocorreram semanas depois de surgirem relatos de que ele supostamente estaria em negociações com os EUA sobre o futuro da ilha.
Segundo o portal americano Axios, as discussões ocorreram com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sem utilizar os canais oficiais do governo cubano.
A CNN não conseguiu verificar essa informação junto ao Departamento de Estado dos EUA ou ao governo cubano.
Ainda assim, alguns analistas e muitos cubanos acreditam que Rodríguez Castro está ganhando destaque público e poderia até assumir um papel de liderança em caso de mudança de governo, já que Cuba enfrenta imensa pressão política e econômica dos EUA.
Como a crise de Cuba se aprofundou
O governo comunista de Cuba, enfraquecido por décadas de sanções dos EUA e má gestão econômica, enfrenta uma das crises mais graves em anos, com o país à beira de uma emergência humanitária.
Os cortes de energia são generalizados, os hospitais estão reduzindo o número de cirurgias, a escassez de combustível e alimentos está se agravando, enquanto o turismo diminui.
A situação em Cuba piorou ainda mais depois da operação dos EUA no dia 3 de janeiro, que depôs o ditador venezuelano Nicolás Maduro, cujo governo abastecia a ilha com petróleo fortemente subsidiado.
Romper as relações da Venezuela com Cuba faz parte da estratégia mais ampla de Washington para derrubar o governo comunista de Havana. Desde meados de dezembro, os EUA bloqueiam o fornecimento de petróleo da Venezuela para Cuba, estrangulando economicamente a ilha.
Autoridades americanas afirmam que a operação para capturar Maduro também expôs as vulnerabilidades de Cuba, matando dezenas de integrantes das forças de segurança cubanas designadas para proteger Maduro, enquanto as forças americanas não sofreram baixas.
A decisão de Washington de manter alguns aliados de Maduro no poder na Venezuela, incluindo a permissão para que a vice-presidente Delcy Rodríguez assumisse a presidência interina, sinalizou que o governo Trump pode estar disposto a fechar acordos com facções rivais cubanas em vez de buscar uma mudança total de regime.
Autoridades americanas já vinham realizando reuniões discretas com a elite venezuelana antes da prisão de Maduro e, segundo relatos, agora estão explorando contatos semelhantes com figuras influentes em Cuba.
Guarda-costas de Raúl Castro
Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos, é filho de Débora Castro Espín, uma das filhas de Raúl Castro, e de Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, um general que chefiava o GAESA (Grupo de Administração de Empresas), um consórcio de empresas sob comando militar.
Rodríguez López-Calleja, que faleceu em 2022, era um dos confidentes mais próximos do ex-presidente, segundo a Associated Press.
O pai de Rodríguez Castro era “um homem em quem Raúl Castro confiava plenamente”, disse Sebastián Arcos, diretor do Instituto de Pesquisa Cubana da Universidade Internacional da Flórida.
Após a morte de Rodríguez López-Calleja, Arcos contou à CNN que o filho começou a subir na hierarquia, assumindo a segurança do avô durante sua presidência, de 2008 a 2018.
“Raúl Guillermo, ‘el Cangrejo’ (o Caranguejo), se tornou chefe da guarda pessoal de Raúl, sua equipe de segurança pessoal”, disse Arcos. “Eventualmente, ele se tornou chefe do que seria o equivalente cubano do Serviço Secreto.”
Fotos da agência Reuters mostram Rodríguez Castro protegendo o avô de 94 anos em várias ocasiões, inclusive durante encontros com o falecido papa Francisco ou com altos funcionários russos.
Rodríguez Castro é amplamente conhecido em Cuba pelo apelido de “Raulito”, que significa “Pequeno Raúl”.
Rodríguez Castro também é sobrinho-neto de Fidel Castro, que liderou a Revolução Cubana em 1959 e foi presidente do país de 1976 a 2008. Ele deixou o cargo devido a problemas de saúde e faleceu em 2016.
O especialista em relações internacionais Fausto Pretelin observou que Rodríguez Castro não possui histórico conhecido dentro do Partido Comunista de Cuba.
Diana Correa, diretora do programa de relações internacionais do Tecnológico de Monterrey, acredita que sua presença nos eventos públicos de Díaz-Canel na sexta-feira (13) demonstra tanto a influência que Raúl Castro continua a exercer na política cubana quanto a confiança que o ex-presidente deposita em seu neto.
“O que me impressiona é que isso esteja acontecendo publicamente agora, mas o que realmente devemos nos perguntar – e é muito difícil saber a resposta – é há quanto tempo ele vem atuando como esse canal de comunicação”, disse ela.
Questões sobre o futuro de Cuba
Segundo Arcos, outro dos colaboradores mais próximos do ex-presidente é seu filho, Alejandro Castro Espín, há muito visto por muitos cubanos como um possível sucessor após a renúncia de Castro em 2018.
“Eles participam de todas essas reuniões governamentais de alto nível, embora nenhum dos dois ocupe um cargo no governo. Eles são os olhos e ouvidos de Raúl Castro em tudo o que acontece no âmbito governamental. Portanto, não seria surpreendente se fossem interlocutores de Raúl Castro em uma suposta negociação com os Estados Unidos”, disse ele.
A CNN entrou em contato com a presidência cubana para obter mais informações sobre os papéis atuais de Rodríguez Castro e Castro Espín.
Diversos meios de comunicação noticiaram que Marco Rubio e Rodríguez Castro conversaram em segredo, algo que nenhum dos dois confirmou publicamente.
Em declarações à imprensa à margem de um encontro da Comunidade Caribenha em São Cristóvão e Névis, no final de fevereiro, Rubio se referiu à crise em Cuba.
“Cuba precisa mudar. Precisa mudar. E não precisa mudar tudo de uma vez. Não precisa mudar de um dia para o outro. Todos aqui são maduros e realistas”, disse Rubio no mês passado.
“Eles precisam fazer reformas drásticas. E se quiserem fazer essas reformas drásticas que abram espaço para a liberdade econômica e, eventualmente, política para o povo de Cuba, obviamente os Estados Unidos adorariam ver isso”, acrescentou.
Correa enfatizou que, em meio à crise em Cuba, muitos cidadãos veem a presença crescente de Rodríguez Castro como um indício de que uma mudança de governo pode estar a caminho, enquadrada em negociações com os EUA.
“Muitos estão dizendo agora que se trata, de fato, de uma mudança geracional, com a pessoa assumindo o controle, mesmo que seja nos bastidores, mas ainda assim controlando as operações”, disse ela.
“Ao ter Castro negociando, pelo menos externamente, parece que estão sinalizando que a negociação é séria, porque essa pessoa representa todo o poder do Estado”, concluiu Diana Correa.
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Fonte : CNN