O Irã pode ter menos poder militar e menos recursos financeiros que os Estados Unidos e Israel, mas possui uma grande vantagem: o controle sobre o estreito de Ormuz. Nesta quinta-feira (12), as forças iranianas intensificaram ataques contra instalações petrolíferas e petroleiros, enquanto vários países do Golfo interceptaram drones e mísseis.
Ao atacar navios que navegam pelo estreito de Ormuz, o Irã efetivamente fechou a rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, dando ao país um poder desproporcional em comparação com suas capacidades militares em declínio.
Seis embarcações foram atingidas no Golfo Pérsico na quarta e na quinta-feira, segundo a agência marítima do Reino Unido. Teerã também teria minado o estreito, o que desencoraja ainda mais os navios a tentar atravessá-lo e representa uma nova escalada na guerra.
O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, não deu sinais de recuo na quinta-feira. Em pronunciamento lido na televisão estatal e atribuído a Mojtaba, ele advertiu que o estreito continuará fechado como uma “ferramenta de pressão.”
Veja o que você precisa saber:
O que o Irã está fazendo?
A atividade iraniana perto do estreito se tornou mais agressiva nos últimos dias, enquanto o país tenta bloquear uma das principais artérias da economia global.
Esta semana surgiu a informação de que o Irã começou a instalar minas marítimas no estreito, segundo duas pessoas familiarizadas com informações de inteligência dos EUA.
A instalação de minas não é extensa, mas o Irã ainda mantém entre 80% e 90% de seus pequenos barcos e navios lançadoras de minas, disse uma fonte à CNN, contradizendo a afirmação do presidente dos EUA, Donald Trump, de que Teerã “não tem marinha.”
Esse movimento destaca a dependência do Irã de guerra assimétrica e o impacto que essas táticas podem causar, mesmo enquanto o país sofre ataques aéreos dos EUA e de Israel.
Trump posteriormente gerou confusão sobre o tema, dizendo que não acreditava que o Irã tivesse conseguido instalar minas e que os EUA haviam destruído “quase todos” os navios responsáveis por essa tarefa.
A United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO), organização britânica ligada à Marinha Real que fornece informações de segurança marítima, também alertou que “não há evidência confirmada de implantação ou detonação de minas” na via marítima.
O Irã possui entre 5.000 e 6.000 minas navais, segundo um relatório do Congresso dos EUA publicado no ano passado. O total inclui diversos tipos de minas. Algumas são minas-lapa, normalmente fixadas manualmente no casco de um navio por mergulhadores. Outras são minas ancoradas, que ficam flutuando logo abaixo da superfície e explodem quando entram em contato com uma embarcação. Há ainda as minas de fundo, que permanecem no leito do mar e detonam quando detectam um navio próximo.
Mesmo assim, as minas representam apenas uma parte da ameaça iraniana no estreito.
A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) — uma força militar que possui sua própria marinha — ainda pode usar uma combinação de minas, barcos suicidas carregados de explosivos e baterias de mísseis em terra, criando o que uma fonte dos EUA descreveu como um “Vale da Morte” no estreito.
Apesar de 12 dias de ataques aéreos, a principal frota de pequenas embarcações da IRGC permanece em grande parte intacta, afirmou Farzin Nadimi, pesquisador sênior do Washington Institute especializado em estratégia naval iraniana.
Isso ficou evidente nos últimos dois dias, quando seis navios foram atacados perto do estreito, segundo a UKMTO, somando-se a outros 10 atingidos desde o início da guerra.
A IRGC assumiu a responsabilidade por alguns desses ataques. Em um deles, disse ter disparado contra o navio graneleiro Mayuree Naree, de bandeira tailandesa, quando ele tentava atravessar o estreito, provocando uma explosão na sala de máquinas. Três dos 23 tripulantes, que estariam trabalhando no local, continuam desaparecidos, segundo autoridades da Tailândia.
Dois petroleiros estrangeiros em águas iraquianas pegaram fogo durante a madrugada de quarta-feira, matando pelo menos uma pessoa. O Irã afirmou que um drone subaquático causou as explosões.
Como os Estados Unidos responderam?
Garantir a segurança do estreito para a navegação comercial está criando mais um desafio para os EUA.
O país respondeu atacando embarcações iranianas lançadoras de minas e avalia escoltar navios comerciais, embora o secretário de Energia, Chris Wright, tenha dito que a Marinha dos EUA ainda não está pronta para isso.
O Comando Central dos EUA afirmou esta semana que destruiu vários navios navais iranianos, incluindo 16 lançadores de minas, perto do estreito, mas não mencionou a destruição de minas.
As capacidades americanas de varredura de minas no Golfo Pérsico não são tão fortes quanto antes. A Marinha dos EUA retirou de serviço os últimos quatro navios especializados nessa função na região no ano passado, ficando dependente de embarcações menos especializadas.
Na época, o Comando Naval Central dos EUA disse que quatro navios de combate litorâneo (LCS) assumiriam essa tarefa. Porém, esses navios têm histórico de problemas, levando críticos a chamá-los de “Little Crappy Ships” (pequenos navios ruins).
Trump propôs escoltar navios no estreito, mas isso colocaria embarcações militares em risco sem oferecer vantagem estratégica clara na guerra.
Embora o principal general americano Dan Caine tenha dito que os EUA avaliariam “uma série de opções” caso recebessem a missão de escoltar navios, Wright afirmou que a marinha provavelmente só estaria preparada para isso no final do mês.
Tecnicamente é possível criar condições para que alguns navios atravessem o estreito em dias ou semanas, mas restabelecer segurança contínua e duradoura pode levar meses, segundo Nadimi.
“Não pode ser feito rapidamente e não pode ser feito sob fogo inimigo”, disse ele.
Mesmo com escoltas, o fluxo de petroleiros provavelmente ficaria pelo menos 10% abaixo do normal, segundo a Lloyd’s List Intelligence. Esse número pode ser bem menor dependendo da resposta do Irã e das operações de remoção de minas.
O que está em jogo?
Quanto mais tempo o Estreito de Ormuz permanecer intransitável, mais graves serão as consequências para a economia global.
Com a passagem praticamente fechada, 15 milhões de barris de petróleo bruto e 5 milhões de barris de outros produtos petrolíferos ficaram retidos no Golfo, segundo o diretor da Agência Internacional de Energia (IEA).
Mesmo em tempos de paz, navegar pelo estreito já exige grande habilidade devido ao canal estreito e ao intenso tráfego marítimo. Essas ameaças tornam a travessia ainda mais perigosa e dificultam sua reabertura.
“Eles querem causar dor”, disse Nadimi à CNN. “O objetivo estratégico é infligir o máximo de dano possível às bases militares dos EUA na região, ao território israelense, aos países do Golfo Pérsico e, indiretamente, ao próprio território americano.”
Existem algumas rotas alternativas para exportar petróleo por oleodutos, mas a maior exportadora do mundo, Saudi Aramco, alertou para as “consequências potencialmente catastróficas” para o mercado de petróleo se o fluxo não for retomado pelo estreito.
Mesmo o anúncio da IEA de que liberaria 400 milhões de barris de petróleo no mercado global — a maior liberação emergencial da história — fez pouco para reduzir a volatilidade do mercado. E esses 400 milhões de barris cobririam o déficit por apenas 26 dias.
Na Ásia, que importa 60% de seu petróleo do Oriente Médio, alguns países já estão tomando medidas drásticas para reduzir o consumo de energia. Escolas foram fechadas no Paquistão, a Coreia do Sul impôs um teto de preço para combustíveis pela primeira vez em 30 anos, e a Tailândia ordenou que funcionários públicos trabalhem remotamente.
Isso já aconteceu antes?
Sim.
Durante a Guerra Irã-Iraque nos anos 1980, os dois países atacaram petroleiros um do outro no Golfo Pérsico. A marinha iraniana colocou minas perto do Estreito de Ormuz, e uma delas atingiu o navio de guerra americano USS Samuel B. Roberts.
O navio sofreu danos significativos, e o governo de Ronald Reagan retaliou danificando ou afundando três navios de guerra iranianos e três plataformas de petróleo, reduzindo drasticamente a capacidade do Irã de atuar no Golfo.
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Fonte : CNN