ALERTA DE SPOILER: Se você ainda não assistiu ao filme “O Agente Secreto”, pare de ler agora. O texto a seguir revela detalhes fundamentais do desfecho da trama.
Indicado a quatro estatuetas do Oscar, o Filme “O Agente Secreto”, do cineasta Kleber Mendonça Filho, vem provocando debates acalorados desde sua estreia no cinema e, há uma semana, na Netflix.
Embora aclamada pela crítica, a obra deixou parte do público intrigada, e alguns até decepcionados, com um final que foge das respostas óbvias e não entrega uma conclusão tradicionalmente “fechada”. No entanto, o mistério parece ter sido desvendado pelos espectadores mais atentos.
Na trama, a historiadora Flávia, interpretada pela atriz Isadora Ruppert, assume o papel de ponte entre o passado e o presente. Intrigada com as lacunas da história oficial sobre Armando (personagem de Wagner Moura, que usa o nome falso de Marcelo para se esconder durante a ditadura), ela decide ir além de uma simples busca superficial no Google.
É através de seu mergulho em arquivos antigos que ela encontra a peça-chave do quebra-cabeça: um recorte de jornal que sela o destino do protagonista.
A notícia impressa, assinada pelo repórter Cleudson Coelho, estampa uma foto de Armando caído no chão, sangrando, e confirma que o pesquisador de 43 anos foi morto a tiros no Recife. Ele estava ameaçado de morte por um homem poderoso que contratou dois assassinos de aluguel para matá-lo.
O jornal retratado na cena é o Diário de Pernambuco, em uma edição de 1977. Para dar veracidade à obra, a produção de Kleber Mendonça Filho utilizou o parque gráfico da Folha de Pernambuco para imprimir as réplicas que agora servem de guia para os fãs.
O texto de Coelho traz nuances de como o regime enxergava Armando de Melo Solimões. Enquanto a investigação oficial tenta manchar sua reputação, o lado humano emerge no relato de quem conviveu com ele.

Dona Sebastiana (interpretada por Tania Maria), administradora do edifício Ofir, defende o ex-morador ao repórter:. “Ele era um bom homem, tenho certeza. Essa história de corrupção não pode ser verdade. Ele veio para cá para começar uma nova vida, perto do filho”, afirmou ela, ainda em estado de choque.
Por outro lado, a visão institucional colhida por Cleudson Coelho é implacável. O delegado Marcos Porto, responsável pelo caso, não demonstra qualquer dúvida sobre o caráter da vítima, classificando o episódio como uma “queima de arquivo”.
“Esse aí não valia muita coisa não. Essa história de que era cidadão do bem, não tem nada disso. O cabra tava envolvido em coisa bem feia por lá”, disse o delegado à reportagem.
Do que Armando era acusado?
Segundo o que foi apurado pela polícia no universo do filme, e relatado na reportagem, Armando era acusado de corrupção e de desviar recursos públicos destinados a pesquisas científicas, motivo pelo qual teria fugido de Brasília para se esconder como arquivista no Recife.
O jornal revela ainda detalhes íntimos: Armando era natural de Pernambuco, viúvo e deixou um filho de 8 anos, Fernando, que ficaria sob os cuidados dos avós maternos.
Para os fãs, esses parágrafos encontrados pela personagem Flávia não são apenas elementos de cena, mas a revelação necessária para compreender a dimensão política e o encerramento da jornada de “O Agente Secreto”.
Leia a reportagem completa que aparece no filme:
Pesquisador Morto a Tiros Era Acusado de Corrupção
Polícia recebeu a informação de que a vítima estava envolvida em crimes sob investigação em Brasília
Cleudson COELHO
A tranquilidade de um edifício residencial na Zona Norte do Recife se transformou em cena de filme de gângster. Um pesquisador recém-chegado à capital pernambucana foi morto com quatro tiros, depois de ser seguido do trabalho até o local, onde residia há apenas uma semana. O pátio do prédio virou um rio de sangue.
O homem, que estava com 43 anos, se apresentava como Marcelo, mas seu verdadeiro nome era Armando de Melo Solimões, como registrado em sua identidade. Segundo o delegado que está à frente do caso, Marcos Porto, ele era acusado de corrupção. “Veio para cá fugido. Desviava recursos dos órgãos públicos destinados a pesquisas”, comentou o delegado. O crime está sendo tratado como queima de arquivo.
De acordo com dona Sebastiana, administradora do edifício Ofir, onde houve a emboscada, Armando mudou-se para o Recife na terça-feira da semana passada, vindo de Brasília. “Ele era um bom homem, tenho certeza. Essa história de corrupção não pode ser verdade”, disse ela à reportagem do Diario de Pernambuco, ainda em estado de choque. “Ele veio para cá para começar uma nova vida, perto do filho”, completou a idosa.
Apesar do clima de consternação no prédio, com os vizinhos olhando a cena de suas janelas, o delegado afirmou com convicção que a vítima estava envolvida em crimes sob investigação em Brasília. “Esse aí não valia muita coisa não. Essa história de que era cidadão do bem, não tem nada disso. O cabra tava envolvido em coisa bem feia por lá”, completou o delegado Marcos.
Foi com o nome de Marcelo que o morto foi trabalhar como arquivista no Serviço de Identificação da Secretaria de Segurança Pública, no Centro do Recife, logo depois do carnaval. Uma colega da repartição disse que, nesses poucos dias, ele não procurou se entrosar com os outros funcionários. “Ele estava o tempo todo desconfiado, de cara amarrada, não queria muito papo”, revelou a mulher. “No dia do crime mesmo ele ficou todo agitado quando viu um sujeito procurando por ele na recepção”, acrescentou, implorando para não ser identificada.
Antes de viver em Brasília, Armando — que era natural de Pernambuco — foi pesquisador do departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Pernambuco. A reportagem apurou que ele era viúvo e tinha um filho, Fernando, de 8 anos, que vive com os avós maternos, também na Zona Norte do Recife.
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Fonte : CNN