wp-header-logo.png

Parece déjà-vu, mas o clima do Oscar no Brasil é praticamente o mesmo do ano passado, quando “Ainda Estou Aqui” fazia história para o cinema nacional. Desta vez, o protagonista é “O Agente Secreto“, thriller político de Kleber Mendonça Filho estrelado por Wagner Moura — e as semelhanças entre as duas campanhas são tão evidentes quanto as diferenças.

Os dois filmes abordam a ditadura militar brasileira, estrearam em grandes festivais europeus e chegaram ao Oscar com o apoio de distribuidoras americanas de peso. Mas os caminhos que cada um percorreu até a maior noite do cinema são histórias distintas, com estratégias, desafios e resultados que vale comparar.

A seguir, a CNN Brasil compara os principais aspectos das duas campanhas — dos festivais de estreia às indicações ao Oscar.

Festivais de lançamento: Veneza e Cannes como trampolins

Toda campanha de Oscar começa muito antes da temporada de premiações — e o festival onde um filme estreia diz muito sobre o caminho que vai percorrer. “Ainda Estou Aqui” escolheu Veneza, um dos eventos mais tradicionais do circuito e cada vez mais valorizado pelos votantes da Academia.

O longa de Walter Salles foi ovacionado por mais de dez minutos na estreia e saiu do festival com o prêmio de Melhor Roteiro, conquistando o primeiro selo internacional que abriria portas para a temporada.

“O Agente Secreto” estreou em Cannes, festival que nos últimos anos consolidou sua posição como o principal trampolim para o Oscar. Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura chegaram à Riviera Francesa em maio de 2025 e saíram com dois prêmios da competição oficial, Melhor Diretor e Melhor Ator, respectivamente.

Os 13 minutos de aplausos que o filme recebeu na estreia viraram símbolo de uma recepção que poucos filmes brasileiros haviam experimentado no exterior.

Distribuidoras: a diferença entre apostar e investir

Se os festivais dão o ponto de partida, as distribuidoras definem o ritmo e o alcance de uma campanha ao Oscar. “Ainda Estou Aqui” contou com a Sony Pictures Classics, uma das distribuidoras mais respeitadas no circuito de filmes de prestígio, com histórico sólido de indicações e vitórias na categoria de Melhor Filme Internacional — entre elas “Uma Mulher Fantástica”, em 2018.

A Sony estruturou o que especialistas descreveram como a maior campanha da história do cinema brasileiro, financiando sessões fechadas, anúncios em publicações especializadas, viagens e aparições em festivais ao redor do mundo.

“O Agente Secreto” foi adquirido pela NEON ainda durante o Festival de Cannes, logo após a repercussão da estreia. A distribuidora opera em outra frequência: é a mesma empresa que conduziu “Parasita” e “Anora” ao Oscar e tem reputação de campanhas criativas e agressivas.

Nos meses que antecederam a cerimônia, a NEON intensificou sua aposta no filme brasileiro com uma série de materiais For Your Consideration divulgados nas redes sociais e disponibilizou gratuitamente quatro curtas de Kleber Mendonça Filho em seu site oficial — um gesto que sinalizou o comprometimento da distribuidora com a campanha.

Estratégia de apresentação ao público americano

Um dos maiores desafios de qualquer campanha de Oscar para um filme estrangeiro é convencer os votantes da Academia a assistir — e, mais do que isso, a se importar.

As estratégias adotadas pelas equipes dos dois filmes brasileiros foram distintas, mas igualmente calculadas.

“Ainda Estou Aqui” precisava apresentar Fernanda Torres a um público que, em sua maioria, nunca havia ouvido falar dela.

A campanha apostou na narrativa histórica: o prêmio de Melhor Atriz que ela conquistou em Cannes aos 20 anos, em 1986, por “Eu Sei Que Vou Te Amar”, tornou-se argumento central. “Quantas atrizes ganharam o prêmio de Melhor Atriz em Cannes aos 18 anos de idade?”, questionou o produtor Rodrigo Teixeira à CNN.

A conexão com Fernanda Montenegro, indicada ao Oscar por “Central do Brasil” em 1999, e a presença de Walter Salles — cineasta com trânsito consolidado em Hollywood — completaram a narrativa.

“O Agente Secreto” partiu de uma posição diferente. Wagner Moura já era figura conhecida nos Estados Unidos graças a “Narcos“, e Kleber Mendonça Filho acumulava prestígio no circuito de festivais internacionais.

A estratégia passou por sessões de perguntas e respostas em Los Angeles com a presença de ambos, posicionando a dupla como embaixadores culturais.

Presença pública da equipe

Walter Salles e Fernanda Torres praticamente fixaram residência nos Estados Unidos durante a reta final da campanha de “Ainda Estou Aqui”. A atriz participou de talk shows americanos, concedeu entrevistas ao The New York Times, estampou capas de revistas como The Hollywood Reporter e Cultured, e apareceu no Good Morning America dias antes do encerramento da votação dos indicados.

Cada aparição reforçava uma imagem que Hollywood não estava esperando: uma atriz estrangeira, bem-humorada, de inglês fluente e carismática.

A equipe de “O Agente Secreto” adotou estratégia parecida, mas com uma escala ampliada pelo perfil internacional de Wagner Moura. Além das sessões de perguntas e respostas em Los Angeles, o ator estampou a capa da The Envelope, revista do Los Angeles Times dedicada à temporada de premiações, e foi capa da M Revista del Milenio, no México.

Kleber Mendonça Filho e Moura apresentaram categorias em cerimônias como o Critics Choice Awards, o Spirit Awards, o PGA e o ACE Eddie Awards — uma presença no coração do circuito americano que poucos estrangeiros conseguem alcançar.

Premiações precursoras

O desempenho nas premiações que antecedem o Oscar funciona como termômetro e, muitas vezes, como fator decisivo na formação do consenso entre os votantes da Academia.

“Ainda Estou Aqui” acumulou mais de 30 troféus ao longo da campanha. O ponto de virada foi a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama, em janeiro de 2025 — a primeira vez que uma brasileira vencia a categoria.

O prêmio trouxe visibilidade num momento estratégico, quando a votação dos indicados ao Oscar se aproximava.

“O Agente Secreto” construiu seu momentum de forma progressiva e igualmente sólida. Venceu o Critics Choice de Melhor Filme Estrangeiro em janeiro de 2026 — primeira vez para um filme brasileiro na categoria —, o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa e prêmios em associações de críticos como o International Cinephile Society Awards, onde o longa foi o mais premiado da noite com seis troféus, e o Paris Film Critics Association Awards.

Nos cinemas britânicos, registrou a maior estreia da história da distribuidora MUBI no Reino Unido para um título em língua não inglesa, superando até “Valor Sentimental”, vencedor do Bafta este ano.

Resultados

“Ainda Estou Aqui” encerrou sua campanha com três indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz para Fernanda Torres. Na cerimônia, venceu Melhor Filme Internacional — a primeira estatueta do Brasil em quase um século de Academia.

“O Agente Secreto” chegou ao Oscar 2026 com quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator para Wagner Moura — o primeiro ator brasileiro indicado na categoria em quase cem anos de premiação.

A cerimônia acontece no dia 15 de março, no Teatro Dolby, em Los Angeles.

CNN Brasil terá live especial na noite do Oscar 2026

Além de matérias especiais no site, a CNN Brasil realizará uma live das 19h às 1h com Elisa Veeck e Mari Palma na TV e no YouTube. Ao lado de artistas e influenciadores, mostraremos desde o tapete vermelho até a divulgação dos vencedores da 98ª edição do prêmio.

source
Fonte : CNN

Destaques Informa+

Relacionadas

Menu