O ambiente político do Corinthians “pegou fogo” na noite da última segunda-feira (9). O que deveria ser a votação da reforma do estatuto no Conselho Deliberativo acabou se transformando na exposição pública de um conflito entre Osmar Stabile, presidente da Diretoria, e Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho.
A origem da crise, segundo os envolvidos, remonta à última sexta-feira (7). De acordo com Stabile, durante um jantar no Parque São Jorge, ele foi ameaçado por Tuma após uma discussão envolvendo o presidente do Conselho e um associado.
Segundo Stabile, Romeu teria dito a seguinte frase: “Ou faz o que eu quero ou vou te f****”.
“Então, o pior de tudo que aconteceu na sexta-feira. Eu estava comendo uma pizza e ele [Romeu Tuma] estava em uma outra mesa. De repente ocorreu uma discussão entre ele e um associado. Ele passou pela minha mesa e falou para mim: ‘Ou você faz o que eu quero ou eu vou te f…’. Eu pensei: ‘Será que ele falou isso mesmo?’, e aí quem estava do meu lado disse: ‘Foi exatamente isso que ele falou’. Eu fiquei muito magoado com isso”, disse Osmar em contato com a imprensa após o ocorrido.
Na noite de segunda-feira (9), já durante a reunião do Conselho Deliberativo convocada para votar a reforma do estatuto, Romeu Tuma abriu a sessão e iniciou o rito da votação. Logo depois, Stabile pediu a palavra e levou o episódio de sexta-feira ao plenário.
O presidente do clube também acusou Tuma de interferir em seu trabalho e de ter vazado a um jornalista uma informação falsa sobre a contratação do segurança Aldair Borges. O nome do profissional foi citado como um dos responsáveis por facilitar a entrada de Augusto Melo e aliados no quinto andar do Parque São Jorge, em 31 de maio, episódio que muitos interpretaram como uma tentativa de golpe.
Ainda no teatro do Parque São Jorge, diante de cerca de 160 conselheiros, Romeu rebateu as acusações. A discussão elevou o tom e acabou gerando uma confusão generalizada entre os presentes.
Após suspender a sessão por cerca de dez minutos, Tuma decidiu encerrar a reunião. Com isso, a reforma do estatuto não foi votada no Conselho e seguirá diretamente para a Assembleia Geral dos Associados.
O que diz Romeu
Na visão do presidente do Conselho Deliberativo, houve um movimento articulado por conselheiros para impedir que o estatuto fosse votado na segunda-feira (9).
Romeu afirmou que Stabile poderia ter levado a denúncia à Comissão de Ética em vez de expor o assunto no plenário, o que, segundo ele, acabou inflamando os ânimos antes da votação.
“Lamento profundamente a atitude do presidente do clube. Se fosse verdade as coisas que ele falou, ele teria vários mecanismos para tomar uma atitude dentro do rito estatutário, dentro dos órgãos competentes”, disse à imprensa.
“Tudo isso só serviu para manchar a imagem institucional do Corinthians, o que eu lamento profundamente, principalmente quando isso parte daquele que é o maior mandatário do clube, que é o presidente”, acrescentou.
Tuma nega ter proferido a frase relatada por Stabile na sexta-feira (7). Segundo ele, naquela ocasião houve uma discussão com o associado Osni Fernando Luiz, conhecido como “Cicatriz”.
Sócio do clube, o torcedor ganhou notoriedade após adquirir a cabeça de porco que foi arremessada no gramado durante um Corinthians x Palmeiras em 2024. Constantemente, ele grava vídeos no Parque São Jorge, muitas vezes proferindo ofensas a conselheiros.
O episódio envolvendo a discussão já foi levado à Justiça.
“O presidente fez acusações graves. Espero que ele represente isso na Comissão de Ética para que eu possa responder e provar que ele mentiu. Na sexta-feira, quando sofri aquela ameaça interna, eu registrei um B.O. e pedi inquérito. Tudo isso vai ser apurado no âmbito policial. Ele vai precisar provar o que falou”, afirmou Tuma.
Segundo o presidente do Conselho, após o episódio com Cicatriz ele apenas fez um alerta a Stabile, sem qualquer teor de ameaça.
“Eu falei: ‘Presidente, como você contrata um cara que está respondendo um inquérito policial por facilitar a entrada de não sócios que agrediram conselheiros, que participou da invasão à sua sala? Se você não tomar providências você vai sofrer, porque eu vou dar entrevista falando disso’. Ainda falei que não era ameaça, só estava avisando que iria fazer isso”, declarou.
Tuma também afirma ter provas de que Aldair Borges voltou a prestar serviços ao clube e que estaria frequentando áreas internas do Parque São Jorge.
O que diz Osmar
Stabile, por sua vez, nega que tenha participado de um movimento para inviabilizar a votação do estatuto. Segundo ele, decidiu expor o episódio no plenário porque representantes de diversos órgãos do clube estavam presentes.
“Eu me encontrava ali com todos os órgãos do Corinthians, do Cori, da Ética. Era uma forma de colocar para todos. Eu disse que se alguém me atrapalhasse eu iria dizer isso no Conselho. Ia dar nome e sobrenome. E dei. Tive coragem de chegar lá e colocar minha situação. Não posso aceitar que um presidente do Conselho fale o que ele falou para mim. É um absurdo isso acontecer aqui dentro”, afirmou.
O presidente também disse que não é contrário à reforma do estatuto. Ele explicou que concorda com a posição do Cori (Conselho de Orientação), que sugeriu a votação gradual do texto, com prioridade para alguns pontos.
“Votaria nos pontos que o Cori colocou. Vi a análise e gostei do que o Cori colocou, para votar naqueles pontos sensíveis. Sou a favor, sempre falei. Só acho que tem que ter uma forma da gente chegar lá, precisa ver uma forma de votar. O voto do Fiel Torcedor já passou da hora de votar nas eleições do Corinthians. O presidente do Corinthians não decide, ele cumpre. Hoje estou cumprindo o estatuto. Se amanhã houver qualquer mudança, continua assim”, disse.
Stabile também acusa Tuma de interferir em decisões da presidência executiva, inclusive em temas ligados ao futebol e em processos administrativos do clube.
Por fim, o presidente nega ter recontratado Aldair Borges. Segundo ele, o segurança foi ao Parque São Jorge na última semana em busca de emprego, mas não foi contratado justamente por causa dos episódios relacionados à invasão do prédio administrativo do clube.
Bastidores
A Itatiaia apurou que, apesar do conflito exposto entre as partes, a relação entre Romeu e Stabile vinha sendo cordial, com troca de mensagens e ligações para resolver questões do clube.
Algumas atitudes de Tuma, porém, já vinham incomodando o presidente da Diretoria. No entendimento de fontes ouvidas pela reportagem, o comportamento intempestivo de Romeu, especialmente quando contrariado, é um ponto citado, assim como pedidos do Conselho que extrapolariam sua alçada.
Já Tuma, segundo apuração da reportagem, entende que apenas exerce seu papel como presidente de um órgão fiscalizador. Todas as suas interlocuções com o presidente, segundo essa visão, ocorreriam pensando no interesse do Corinthians e respeitando suas atribuições, conforme determina o estatuto.
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Fonte : CNN