wp-header-logo.png

Quando os ponteiros se alinharem no topo do relógio e as 12 badaladas indicarem que é meia-noite de quarta-feira (11), começa o período de silêncio da diretoria do BC (Banco Central) para a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).

Dali em diante e até a próxima quarta-feira (18), quando o colegiado anunciar sua decisão para a taxa básica de juros, os quadros da alta cúpula da autarquia são proibidos de manifestar suas visões sobre o cenário econômico, dando pistas sobre o que será discutido na reunião e influenciar a política monetária cujo trabalho é controlar a inflação através dos juros.

Há no mercado forte expectativa para o início de um ciclo de cortes na taxa Selic, movimento sinalizado pelo Copom em janeiro, “em se confirmando o cenário esperado” pela diretoria do BC.

Contudo, o cenário virou de ponta cabeça desde que os Estados Unidos e Israel lançaram um ataque sem precendentes contra o Irã, que retaliou disparando contra o território israelense e outros países do Oriente Médio que abrigam bases norte-americanas.

As 24 horas desta terça-feira (10) representam a última chance de o Copom dar um sinal público sobre possíveis mudanças de perspectivas para a decisão de juros antes que da reunião.

“O teste importante será hoje. O BC começa o período de silêncio na quarta. Se ele tivesse visão diferente do que foi sinalizado na reunião anterior, a boa prática para não assustar mercado seria uma declaração em evento ou entrevista para falar”, defende Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management.

Especialistas ouvidos pelo CNN Money ponderam sobre o efeito prático que a guerra pode ter no rumo da política monetária.

 

Tensão no mercado

A pressão sobre essa reunião cresceu na última semana com o desenrolar da guerra dos Estados Unidos e de Israel com o Irã.

Em seus últimos comunicados, o Copom já vinha transmitindo incertezas com o mundo, e em sua última decisão de juros, em janeiro, não foi diferente.

“O ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”, diz o comunicado da última reunião, que manteve a Selic em 15% ao ano, mas abriu portas para corte no próximo encontro.

Contratado o ciclo de afrouxamento da política monetária, o mercado começou a deliberar sobre o grau da queda dos juros.

Até antes da guerra, no dia 27 de fevereiro, mais de 70% dos investidores apostavam que o corte seria de 0,5 ponto percentual, de acordo com os contratos de opções de Copom negociados na B3. Dali em diante, começou-se a questionar se a queda brusca seria segura.

Impacto do conflito no bolso do consumidor

Mas o que a guerra tem haver com isso? A guerra no Oriente Médio levou à redução de tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, rota que atravessa as águas do Irã e de Omã e é considerada ponto crucial para o transporte global de petróleo.

Estima-se que passe por ali cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente, e que abastece grandes economias como as da China e da Índia. A ferramenta de inteligência de tráfego marítimo Marine Traffic mostra que o tráfego de navios petroleiros via Ormuz caiu 90% desde o início do conflito.

 

Com o fluxo quebrado, os preços do petróleo no mercado internacional dispararam e chegaram a tocar os US$ 100 nesta segunda-feira (9).

E mesmo tendo recuado no pós-mercado, após o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar que reduziria sanções relacionadas ao petróleo para controlar os preços de energia, os contratos futuros do barril da commodity seguiam cotados acima de US$ 80.

“O cenário não é de falta, o problema é logistico. Escoamento que se transforma em problema de produção na hora que a capacidade de estocar é limitada, e tem que parar produção”, pondera Gino Olivares, da Azimut.

“Entendo que ele está procurando uma saída. Nessa perspectiva, o mercado tira pressão do mercado e precifica a volta de uma normalidade”, pontua.

Petróleo mais caro significa combustível mais caro. E com os combustíveis custando mais, toda produção e transporte que depende deles acaba encarecendo junto, de modo que a contaminação inflacionária é generalizada.

O preço do petróleo na casa dos US$ 80 traz um impacto de 0,25 ponto percentual na inflação brasileira, segundo relatório da Tendências Consultoria.

A guerra impacta os juros?

Se a reunião do Copom fosse agora, Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, acredita que a autarquia iria pelo caminho da cautela, iniciando o ciclo de cortes com 0,25 ponto. Contudo, ressalta que pela frente ainda “tem mais uma semana para passar”.

“Vai saber o que vai acontecer. O mercado melhorou muito com a fala do Trump, e de repente é isso mesmo e a guerra acaba logo. Se seguir com essa melhora, o cenário dá mais conforto ao Copom. O problema não é de projeção, é sobre a incerteza com o momento, que é uma bagunça considerável”, ressalta Schwartsman.

“A primeira coisa é que o cenário pro Banco Central fica muito mais nebuloso. Embora tenha recuado [no pós-mercado de segunda-feira], o preço de petroleo está mais alto do que estava no último Copom, e isso tem algum impacto na projeção de inflação via preço de combustíveis”, pontua.

Contudo, Schwartsman destaca que reajustes pontuais não devem mexer com o rumo da queda dos juros, uma vez que o Copom trabalha com um horizonte futuro. Para influenciar no quadro analisado pelo BC, o cenário precisaria impactar a inflação de outubro de 2026 até setembro de 2027.

Nessa linha, o também ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC e colunista do CNN Money, Tony Volpon ainda banca o corte de 0,5 ponto.

“Sempre tive a expectativa que essa guerra seria relativamente curta, não seriam semanas e meses, mas sim encerrada quando Israel, especialmente, teria degradado o complexo industrial militar iraniano”, argumenta Volpon.

“E só foi o petróleo bater em US$ 100 que o Trump saiu dizendo que ‘já deu’, e que esse conflito deve acabar em breve, que foi essa volta que a gente viu no mercado. Essa pequena alta que teve na expectativa da Selic, quanto disso está sendo contaminado por esses fatores de curto prazo que podem muito bem reverter nos próximos dez dias”, ressalta.

O cenário projetado pela Azimut segue em corte de 0,5 ponto, assim como a mediana do mercado apurada pelo Boletim Focus desta segunda. Contudo, Gino Olivares destaca que “a palavra ‘calibragem’ é importante, de restritivo para menos restritivo, mas ainda restritivo”.

“O problema é temporário. Mesmo intenso, no meu ponto de vista, não deveria mudar a decisão. O Banco Central não pode ser influenciado por ruído de curto prazo”, defende Olivares.

A cautela também é destacada por Schwartsman. “O Copom continua tendo, nas projeções, espaço para cortar juros. O que acontece é que o grau de incerteza que o comitê vai ter sob as projeções pode acabar o levando a ser mais cauteloso”, conclui o ex-BC.


source
Fonte : CNN

Destaques Informa+

Relacionadas

Menu