Dominar um tabuleiro com 64 casas à disposição pode parecer um desafio de memória pura. No entanto, a ciência mostra que o sucesso no jogo pode estar ligado à como o cérebro é capaz de organizar o espaço no xadrez.
Um novo estudo publicado no Journal of Sports Sciences investigou como jogadores iniciantes, com até dois anos de prática, decifram e desenvolvem a “visão de jogo”.
A pesquisa avaliou 51 universitários, com média de 20 anos de idade, e descobriu que o reconhecimento de padrões é o principal preditor de variância no Rating Elo, o sistema que mede a força de um enxadrista. Segundo os dados, essa habilidade é responsável por explicar 35% do desempenho dos atletas novatos.
O estudo usou a “Teoria dos Chunks” para decifrar o comportamento cerebral. De acordo com a teoria, conforme o jogador evolui, ele deixa de enxergar cada peça como um item individual. Após esse processo, ele passa a processar grupos de peças como uma única unidade de informação, ou seja, um agrupamento, na memória de curto prazo.
A diferença na eficiência mental foi comprovada em testes de contexto real e contextos aleatórios.
Nos primeiros, quando estavam em situações de posições extraídas de partidas verídicas, os novatos acertaram a posição de 4,70 peças em média.
Já no grupo de aleatoriedades, quando as peças foram espalhadas sem lógica, o desempenho caiu para 3,65 peças. Segundo o estudo, isso prova que o cérebro iniciante já possui uma “sensibilidade semântica”, que ajuda a reter o que faz sentido tático.
Trilhos da mente
Uma das revelações da análise foi que a memória de trabalho visual-espacial, uma espécie de capacidade de reter imagens temporariamente, e o reconhecimento de padrões funcionam como trilhos independentes.
Com o uso de testes como o “Corsi Back”, os cientistas perceberam que ter uma memória privilegiada até ajuda, mas não é obrigatoriamente determinante para a capacidade do jogador de identificar um padrão de defesa ou ataque durante o jogo.
Isso acontece porque para os novatos, os processos ainda não estão totalmente claros e “automatizados”, o que exige um esforço cognitivo maior que o de um mestre.
“Cálculo infinito”?
Muitos iniciantes acreditam que precisam estar sempre dez jogadas à frente do adversário. Porém, a pesquisa indica que “a busca profunda”, ou o “cálculo antecipado”, é menos eficaz nessa fase.
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Como o novato ainda não formou uma biblioteca sólida de “chunks”, ele não tem base suficiente para avaliar múltiplas possibilidades futuras com precisão. O estudo sugere que, para subir de nível, o treinamento deve ser focado em momentos de exposição para configurações comuns e motivos táticos, em vez de simples e pura memorização dos movimentos.
A partir disso, o jogador é capaz de tornar o tabuleiro de xadrez em um desafio estruturado e superável, deixando de ser um labirinto confuso. O Rating Elo dos participantes foi estimado por meio de um teste padronizado de 10 posições táticas.
O artigo “Cognitive foundations of chess performance in novice players”, desenvolvido por Isidoro Astudillo-Sandoval, Javier Sanchez-Lopez, Marika Berchicci, Alma Janeth Moreno-Aguirre, Bernarda Tellez-Alanis e Gerardo Maldonado-Paz, foi publicado em fevereiro de 2026.
A pesquisa passou por instituições como Universidade Autônoma do Estado de Morelos e Universidade Nacional Autônoma do México, ambas no país latino, e Universidade “G. d’Annunzio” de Chieti-Pescara , na Itália.
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Fonte : CNN