Um grupo internacional de pesquisadores anunciou a descoberta de uma nova espécie de tetrápode primitivo, batizada de Tanyka amnicola, que habitou a região Nordeste do Brasil no início do período Permiano. Publicado no periódico científico The Royal Society, o estudo descreve achados fósseis na Formação Pedra de Fogo, com espécimes coletados nos estados do Maranhão e Piauí.
O nome da nova espécie, Tanyka amnicola, é uma junção do termo Guarani “tañykã” (que significa “mandíbula” ou “queixo”) com a palavra latina “amnicola” (que significa “habitante do rio”). O nome reflete tanto o local onde o holótipo foi encontrado, no leito de um rio em Pastos Bons (MA), quanto os hábitos supostamente aquáticos do animal.
Uma mandíbula única
O que mais impressionou os paleontólogos foi a anatomia altamente modificada do Tanyka. O animal possuía uma mandíbula com uma forte torção e uma bateria massiva de dentes (dentículos) bulbosos localizados no osso coronóide.
Diferente de outros predadores da época, a estrutura da mandíbula indica que a principal área de mastigação ocorria não nos dentes marginais, mas sim nessa placa de dentículos coronais, que fazia um movimento transversal de “raspagem” contra o céu da boca, algo parecido com o que é visto em algumas salamandras aquáticas modernas, como a Siren lacertina.
De acordo com a pesquisa, essa mecânica de raspagem lateral dificilmente serviria para abater grandes presas. Em vez disso, sugere uma adaptação para processar pequenos invertebrados com carapaças duras ou, de forma inédita, o consumo de plantas. Se confirmada, essa seria a primeira documentação de herbivoria ou onivoria em um tetrápode primitivo, demonstrando que essas linhagens arcaicas não estavam estagnadas, mas ativamente explorando novos nichos ecológicos no início do Permiano.
A nova descoberta
Até então, o consenso científico era focado no evento conhecido como CRC (Colapso das Florestas Tropicais do Carbonífero). Acreditava-se que uma drástica secagem do clima global havia provocado a extinção em massa dos tetrápodes primitivos que dependiam de pântanos permanentes, levando à sua rápida substituição por anfíbios e amniotas (ancestrais de répteis e mamíferos) mais evoluídos. Essa teoria, no entanto, foi baseada amplamente em fósseis do supercontinente do norte, a Laurásia (atuais Europa e América do Norte).
A identificação do Tanyka, classificado no grupo de linhagens arcaicas conhecido como “bafetídeos”, representa a primeira vez que um animal dessa categoria é encontrado no supercontinente do sul (Gondwana) e o único representante conhecido do período Permiano em todo o mundo.
Os fósseis do Tanyka não estavam em refúgios tropicais úmidos, mas foram encontrados em sedimentos que indicam um ambiente quente e sazonalmente seco, como pântanos efêmeros e lagos rasos do antigo Brasil. Isso comprova que os tetrápodes basais não foram totalmente exterminados por climas áridos e conseguiram sobreviver convivendo com espécies mais avançadas.
A revelação enfatiza que o supercontinente Gondwana abrigou uma fauna complexa e diversificada com raízes no período Carbonífero, e que a substituição de espécies pré-históricas pelo mundo foi um processo prolongado e muito mais intrincado do que a hipótese do colapso ecológico europeu-norte-americano fazia parecer.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
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Fonte : CNN