A seleção feminina de futebol do Irã foi obrigada a saudar e cantar o hino nacional, nessa quinta-feira (5), antes da partida contra a Austrália pela fase de grupos da Copa da Ásia Feminina.
Fontes próximas à equipe disseram à CNN que a atitude ocorreu poucos dias após as jogadoras se recusarem a fazê-lo na estreia do torneio.
Antes da derrota por 3 a 0 para a Coreia do Sul, na segunda-feira, as atletas permaneceram em silêncio enquanto o hino iraniano era tocado.
Na ocasião, as jogadoras ficaram de pé, olhando para frente, sem cantar ou reagir durante a execução do hino.
Silêncio no hino foi visto como gesto de desafio
Antes daquela partida, o time e a técnica Marziyeh Jafari também se recusaram a comentar a guerra iniciada no Oriente Médio. Elas igualmente evitaram falar sobre a morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.
Muitos interpretaram o silêncio como um gesto de desafio ao regime iraniano. Ainda assim, a equipe nunca declarou publicamente qual foi a intenção da atitude.
O gesto aparentemente não foi bem recebido pelo governo iraniano. Imagens publicadas nas redes sociais mostram o apresentador da mídia estatal Mohammad Reza Shahbazi chamando as jogadoras de “traidoras”.
Segundo ele, as atletas “devem ser tratadas de forma mais severa”. Fontes ouvidas pela CNN dizem que as jogadoras estão sob forte vigilância.
Famílias das jogadoras foram ameaçadas
De acordo com essas fontes, agentes de segurança iranianos monitoram constantemente a equipe. Entre eles, estaria um homem que seria ligado à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC).
As jogadoras teriam sido pressionadas e forçadas a demonstrar apoio ao regime. A pressão teria ocorrido por meio de ameaças dirigidas às famílias das atletas.
As ameaças teriam levado as jogadoras a cantar o hino antes da derrota por 4 a 0 para a Austrália. Antes da partida, a atacante iraniana Sara Didar demonstrou forte emoção ao falar com jornalistas.
Ela chorou ao comentar a situação das famílias das atletas no Irã. “Obviamente estamos preocupadas e tristes com o que aconteceu com o Irã e nossas famílias”, disse.
“Espero que meu país continue vivo e forte”
“Espero muito que nosso país tenha boas notícias em breve”, afirmou Didar, segundo a Associated Press. “Espero que meu país continue vivo e forte”, acrescentou.
A técnica Marziyeh Jafari também comentou a situação enfrentada pelo grupo. Ela disse que todas estão preocupadas com parentes e amigos no Irã.
Segundo Jafari, a equipe está praticamente sem contato com o país. A treinadora afirmou que os apagões de comunicação dificultam falar com familiares.
Elenco tenta manter o foco na competição
Mesmo assim, disse que as jogadoras tentam manter o foco na competição. “Estamos aqui para jogar futebol profissionalmente”, declarou.
“Vamos tentar nos concentrar apenas no jogo e no futebol”, completou.
Espera-se que as atletas tenham novamente de saudar e cantar o hino antes do jogo contra as Filipinas. A partida será no domingo (8) e encerra a fase de grupos.
Se vencer por larga margem, o Irã ainda pode avançar como um dos melhores terceiros colocados. Caso seja eliminado, o time deve retornar ao Irã no mesmo dia.
Especialista destaca risco enfrentado por atletas
A ativista de direitos humanos Tina Kordrostami disse à CNN que o protesto exigiu “coragem extraordinária”. Ela explicou que recusar cantar o hino pode ser interpretado como gesto político.
Para atletas iranianas, porém, as consequências podem ser muito mais graves. Segundo Kordrostami, mulheres esportistas no Irã não podem criticar livremente o governo.
Ela afirmou que celulares das atletas são monitorados e que discursos públicos são restritos. Até mesmo comunicações privadas podem ser analisadas pelas autoridades.
Por isso, o silêncio durante o hino pode ter sido uma das poucas formas de protesto. “Naquele momento, o silêncio virou uma maneira de comunicar dissidência ao mundo”, disse.
Protesto gerou pedidos de proteção às jogadoras
O caso gerou pedidos de proteção às atletas nas redes sociais. O comediante britânico-iraniano Omid Djalili afirmou que a equipe está em “grave perigo”.
O diretor do Refugee Council of Australia, Paul Power, também comentou o episódio. Ele disse ao jornal “The Guardian” que as jogadoras podem estar em risco caso retornem ao Irã.
Power afirmou que protestos pacíficos já resultaram em consequências graves no passado.
Kordrostami defendeu que a Austrália garanta proteção às atletas enquanto elas estiverem no país. Ela disse que possíveis integrantes da delegação ligados ao regime devem ser investigados.
Segundo a ativista, o país tem leis fortes contra interferência estrangeira.
Governo australiano comenta situação
A CNN procurou o Ministério das Relações Exteriores da Austrália para comentar o caso. A chanceler australiana Penny Wong afirmou que o país apoia o povo iraniano.
“A Austrália está ao lado do povo corajoso do Irã em sua luta contra a opressão”, disse. Ela também pediu que o regime iraniano respeite a liberdade de expressão.
Wong afirmou que a participação do Irã no torneio pode inspirar jovens iranianas.
Já Kordrostami pediu que o público veja as atletas acima de tudo como esportistas. Segundo ela, as jogadoras enfrentam pressões políticas raramente vistas no esporte. “Essas mulheres merecem respeito, empatia e proteção”, afirmou.
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Fonte : CNN