A inteligência artificial (IA) transformou a área da nutrição, com aplicativos que analisam alimentos por fotos, criam cardápios automaticamente e respondem dúvidas instantaneamente. Essa evolução tecnológica promete uma nutrição personalizada ao alcance de um clique. No entanto, é crucial reconhecer que a IA pode ser uma ferramenta de apoio, mas não substitui a expertise humana necessária para criar uma dieta eficaz, segura e com resultados duradouros.
As ferramentas digitais otimizam tarefas como calcular calorias, identificar padrões alimentares, sugerir substituições, organizar listas de compras e lembrar metas. Apesar da velocidade e precisão, esses sistemas não conseguem compreender o contexto emocional, social e cultural que influencia a adesão a um plano alimentar.
O auxílio digital é valioso quando utilizado corretamente. Contudo, a simplificação excessiva e a transformação da dieta em mera contagem de calorias e cardápios predefinidos podem levar ao autodiagnóstico e à adoção de estratégias restritivas ou perigosas.
A tecnologia pode auxiliar na criação de cardápios, mas não identifica fatores cruciais para a conduta nutricional, como alterações na composição corporal, sinais de transtornos alimentares, sintomas de intolerâncias ou alergias, interações medicamentosas e condições como Síndrome do Ovário Policístico (SOP), resistência insulínica ou hipotireoidismo. A identificação e tratamento dessas condições exigem exame físico, diálogo detalhado e raciocínio clínico, habilidades que algoritmos não possuem.
As máquinas operam com médias, enquanto a nutrição lida com indivíduos únicos. Apesar da aparente personalização, as ferramentas de IA fornecem planos básicos baseados em dados gerais, sem considerar histórico renal, cardíaco, cirurgias bariátricas, Síndrome do Intestino Irritável (SII), intolerâncias, metabolismo adaptado ou outras particularidades individuais.
A nutrição eficaz requer análise clínica, sensibilidade e interpretação humana, qualidades que a tecnologia não pode replicar. Embora a tecnologia acelere tarefas e simplifique processos, ela nem sempre oferece informações precisas e não substitui o olhar de um especialista.
Um exemplo recente ilustra as limitações da IA. Uma pessoa, buscando melhorar a alimentação sem consultar um nutricionista, substituiu o sal de cozinha por brometo, seguindo uma sugestão da IA. O incidente, ocorrido em agosto de 2025 nos Estados Unidos, resultou no desenvolvimento de uma condição psiquiátrica rara devido à intoxicação por bromo (bromismo).
No Brasil, nutricionistas estão solicitando a regulamentação do uso da IA na nutrição, preocupados com a falta de personalização e o risco de desinformação quando essas ferramentas são utilizadas sem supervisão clínica.
A IA pode ser útil, mas não considera a complexidade da vida real: viagens inesperadas, semanas estressantes, festas de aniversário, imprevistos, variações hormonais ou dias de baixa energia. A IA não adapta o cardápio em situações de cansaço, lesões ou rotinas alteradas. Um nutricionista, por outro lado, escuta, adapta e reformula a estratégia com base nas vivências diárias do paciente.
A tecnologia pode indicar o que fazer, mas o profissional ensina como fazer. A mudança de comportamento é um processo humano, não uma fórmula matemática.
A IA é poderosa, mas a verdadeira transformação é humana. A IA pode gerar cardápios e dietas, mas apenas um profissional oferece cuidado real, interpreta, acolhe, ajusta e cria estratégias que se encaixam na rotina de cada indivíduo. O sucesso não depende do algoritmo, mas da parceria entre nutricionista e paciente, construída com ciência, empatia e constância.
Fonte: revistatimeline.com