Com uma nova edição do “Big Brother Brasil” no ar, volta a circular na internet uma lenda de que a logo do reality foi criada por um estagiário desesperado em um final de semana. Na verdade, o autor da identidade visual era, sim, um profissional recém-integrado à equipe da Globo que teve apenas um final de semana para criar a identidade visual do reality, mas não era estagiário.
Em entrevista à CNN Brasil, o autor da obra, designer Rogério Abreu, hoje um veterano com mais de 20 anos de casa e criador de identidades de programas como “A Grande Família” e de novelas como “O Beijo do Vampiro”, esclarece o mito: ele não era estagiário, mas o novato de uma equipe de elite liderada por Hans Donner. No entanto, a logo nasceu de uma crise de bastidores.
O início de Rogério na emissora foi em 2001. Ele herdou a vaga de um ilustrador que partia para o New York Times e foi contratado por Donner no exato dia do atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro. O primeiro desafio foi o “projeto de um tal reality” que a Globo tinha dificuldade em aprovar com a licenciadora holandesa, a Endemol.
“O Hans reuniu a equipe e explicou que cinco propostas de veteranos já haviam sido rejeitadas. Os holandeses diziam que o que a Globo apresentava não traduzia a imagem do projeto. Era muito design para pouco conceito”, explica Rogério.
Ele relata que a Endemol havia imposto um prazo final e, caso a sua proposta também fosse rejeitada, a Globo correria o risco de não conseguir a licença para produzir o reality. ”Eles estavam cansados. O Hans me mostrou um e-mail do executivo da Endemol, muito bravo, dizendo: ‘Cara, esse programa não é de vocês, esse programa é nosso, então tem que ser a nossa linguagem’. O Hans me disse, então, que eu tinha apenas um fim de semana para resolver isso”, conta Rogério.
Enquanto a Globo, na época, utilizava identidades visuais saturadas de texturas 3D e volumes pesados, Rogério apostou no flat design, uma estética limpa e funcional. Com o prazo de uma sexta para segunda-feira, ele desenhou o esqueleto da marca que conhecemos hoje: uma lente tecnológica substituindo a letra “O” da palavra Brother.
”Eu tive esse insight da lente da câmera. Pensei: ‘Não vou fazer nada complexo, vou fazer uma parada simples, trabalhar a logotipia e dar destaque para a lente’. A defesa do projeto foi que, se o programa tivesse vida longa, toda a evolução visual estaria nessa lente’‘, explica.
A aprovação unânime e a “cor proibida”
O designer conta ainda como foi receber a notícia de que seu projeto de logo tinha sido aprovado. O seu chefe, Hans Donner, entrou no departamento e não falou com Rogério; em seguida, chamou toda a equipe na sua sala, deixando Abreu por último.
“Eu estava pronto para receber um ‘vá embora porque você não resolveu o problema’. Quando eu entrei, todos fizeram uma cara de ‘estamos arrasados’, de propósito. Aí, em seguida, foi aquela festa: ‘Você conseguiu! Parabéns!’. Os caras da Holanda aprovaram na hora. Aquilo foi um divisor de águas na minha carreira”.
A aprovação pela Endemol foi imediata, mas um detalhe quase mudou a história: a cor. Originalmente, Rogério concebeu o projeto em laranja, mas Hans Donner tinha um “ranço” pessoal com a cor.
“O Hans não suportava. Ele condicionou que a marca seria aquela, mas que a Globo usaria o azul. Eu alterei as cores.”
A virada de 2017: a era Tiago Leifert e o Branding Digital
A profecia de Rogério levou 16 anos para se cumprir. Em 2017, com a saída de Pedro Bial e a entrada de Tiago Leifert na apresentação do reality, o programa precisava se render definitivamente à internet. Segundo Rogério, Leifert queria que o público enxergasse o programa de outra maneira, e foi nesse momento em que a emissora parou de brigar com as redes sociais para se tornar um ecossistema digital.
Em uma reunião de criação, Rogério apresentou a proposta original da logo na cor laranja, e o apresentador gostou: ‘‘Quando Leifert viu o projeto no laranja, ele falou: ‘É isso aqui, eu quero que seja isso aqui.’ O laranja é muito mais jovem, é uma cor viva, quente, excêntrica e tem tudo a ver com o movimento da internet.” Recorda Abreu.
Hoje, sob o comando de Tadeu Schmidt, que fez questão de manter a identidade visual atual por considerá-la icônica, o design do BBB é gerido como um organismo vivo. Rogério Abreu continua envolvido nas atualizações anuais, o que ele chama carinhosamente de “maquiagem de marca”.
O objetivo é ambicioso: o “Big Brother Brasil” possui um plano de evolução de branding projetado para os próximos 50 anos. Para o designer, o segredo da longevidade está na autenticidade: “As novelas se repetem muito. O ‘Big Brother’ conta histórias reais de pessoas reais em momentos únicos. Essa atualização da narrativa vem junto com a imagem”.
Além de designer na TV Globo, Rogério Abreu também é professor na ESPM, professor convidado no MBA de branding da PUC-RS e autor do livro “Design na TV: pensando vinheta”, pela Editora Schoba.
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Fonte : CNN