Em meio às eleições e à restrição fiscal, a equipe técnica que participa da formulação do Plano Safra trabalha com a premissa de que o peso das letras e títulos privados ligados ao agro será ainda maior no ciclo 2027/28.
A dependência de instrumentos como LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) e CPR (Cédula de Produto Rural) não é ideológica, mas estrutural. Com espaço fiscal limitado para ampliar a equalização de juros ou subvenções, o crescimento dessas fontes privadas tornou-se peça central para sustentar volumes elevados de crédito rural.
A LCA permanece estratégica. Em 2025, o governo tentou alterar a isenção tributária desses títulos por meio da MP (Medida Provisória) 1303, dentro de um pacote para reforçar a arrecadação federal.
A proposta chegou a prever tributação sobre rendimentos de LCAs e LCIs, mas enfrentou forte reação do setor e articulação política liderada pela FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária). A medida perdeu força e não avançou.
Após a derrota na via tributária, houve sinalização do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que poderiam ser feitos ajustes via CMN (Conselho Monetário Nacional) para tornar as emissões mais direcionadas ao produtor rural.
Nos bastidores técnicos, porém, não há movimento concreto nessa direção neste momento. Não existem sequer estudos em curso para impor limites adicionais ou restringir emissões de forma significativa.
Desde 2024, ajustes regulatórios já haviam sido promovidos para reforçar o direcionamento obrigatório dos recursos captados por LCAs ao crédito rural. Esses ajustes calibraram o sistema sem comprometer a atratividade do instrumento.
A avaliação interna é de que qualquer endurecimento excessivo poderia reduzir as emissões justamente quando o Plano Safra depende delas para fechar a conta.
Paralelamente, a CPR ganhou força. Entre julho e janeiro do ciclo atual, as contratações via instituições financeiras cresceram quase 50% na comparação anual, saltando de cerca de R$ 104 bilhões para aproximadamente R$ 154,8 bilhões.
O crescimento da CPR está associado ao ambiente de maior seletividade bancária após o aumento das recuperações judiciais e da inadimplência.
Como não se enquadram integralmente na estrutura clássica do crédito rural subsidiado, o instrumento permite operações mais flexíveis, com participação de tradings, cooperativas e fornecedores de insumos.
Outro fator relevante é o reforço das garantias. Instituições financeiras passaram a exigir mecanismos mais robustos, como alienação fiduciária, reduzindo vulnerabilidades jurídicas. Isso torna a CPR mais protegida do ponto de vista do credor e contribui para sua expansão.
Dentro do governo, a leitura é pragmática: manter o recorde nominal do Plano Safra depende cada vez menos de ampliar subsídios e cada vez mais de estruturar um modelo híbrido, em que LCAs, CPRs e outras letras e fundos vinculados ao agro complementem o crédito oficial.
O Plano Safra 27/28, portanto, tende a nascer sob essa lógica: piso recorde preservado, mas sustentado por uma engenharia financeira mais dependente do mercado de capitais e menos do Tesouro.
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Fonte : CNN