A Fundação Bunge está ampliando sua atuação em prevenção a incêndios florestais, restauração ecológica e agricultura regenerativa, com investimentos próprios de R$ 15 milhões por ano e novas parcerias com o poder público. Em entrevista à CNN Agro, a presidente da instituição Cláudia Buzzette Calais detalhou como a estratégia combina tecnologia, políticas públicas e integração produtiva nos territórios.
Na frente de prevenção e combate a incêndios, a Fundação firmou parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para capacitação de brigadistas indígenas e doação de equipamentos.
A iniciativa inclui formação para uso de drones — tanto no combate direto ao fogo quanto no monitoramento preventivo, como em ações de queima prescrita — e a doação dos próprios equipamentos às brigadas.
Além disso, a Fundação está financiando a estruturação de sete salas de situação móveis para o Ibama. Três já foram entregues. As unidades são equipadas com telões, computadores de alta performance, impressoras e plotters, permitindo operação remota em áreas críticas.
A proposta é descentralizar a capacidade de resposta. “É como se você tivesse uma grande redação, mas não conseguisse falar com seus escritórios regionais. As salas móveis permitem que o Ibama opere com estrutura completa em campo, inclusive em situações como os mega incêndios registrados no Pantanal em 2024”, explicou.
Os recursos da parceria com o Ibama são integralmente da Fundação; o órgão ambiental entra com o conhecimento técnico e a execução dos treinamentos.
Indígenas
Questionada sobre a decisão de priorizar brigadas indígenas, a presidente argumenta que esses territórios concentram parte significativa das áreas preservadas do país e, historicamente, recebem menos investimentos em tecnologia.
“Grande parte das áreas preservadas hoje está em terras indígenas. A agricultura brasileira depende dessa biodiversidade. Preservar esse ativo ambiental é preservar a própria produção”, afirmou Cláudia.
A estratégia, segundo ela, não exclui grandes produtores. A expansão do projeto prevê parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para apoiar a implementação dos Planos de Manejo Integrado do Fogo, que passam a ser exigência legal.
A ideia é que grandes produtores, agricultores familiares e povos indígenas atuem de forma coordenada dentro de um mesmo território. “Se há um incêndio, cada elo já sabe o que fazer. O grande produtor muitas vezes tem caminhão-pipa ou até aeronave. O pequeno e o indígena conhecem o território. O plano precisa integrar todos”, disse.
Restauração com geração de renda
Na frente de restauração, a Fundação participa do edital do Floresta Viva, iniciativa do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O aporte total da chamada é de R$ 10 milhões, sendo 50% do banco e 50% da iniciativa privada — R$ 4 milhões da Fundação Bunge e R$ 1 milhão da Agrícola Alvorada.
A meta é restaurar até 500 hectares em terras indígenas nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Maranhão.
Segundo a presidente, a restauração adotada é “ecológica”, ou seja, combina recomposição com espécies nativas e planejamento produtivo. “Restaurar é caro. Para chegar a 500 hectares, estamos falando de cerca de R$ 10 milhões. Então, além de biodiversidade, pensamos em segurança alimentar e geração de renda”, explicou.
Em um projeto anterior no Mato Grosso, a Fundação restaurou 100 hectares com adensamento de espécies como baru e pequi, utilizadas na alimentação local e com potencial de comercialização. Também são adotados sistemas integrados, combinando floresta e culturas como mandioca e abóbora.
As sementes utilizadas nos projetos vêm de terras indígenas, com uso da técnica da “muvuca”, o que também gera renda para comunidades tradicionais.
Agricultura regenerativa e produtividade
A Fundação conecta essas ações ao conceito de agricultura regenerativa, já incorporado como política corporativa pela Bunge.
Entre os exemplos citados está a polinização assistida. Segundo dados apresentados pela presidente, projetos acompanhados pela Fundação registram aumento médio de 13% na produtividade com introdução de colmeias em grandes propriedades — podendo chegar a 30% em culturas como o gergelim.
A estratégia envolve agricultores familiares na gestão das colmeias, gerando renda adicional com a produção de mel. “O grande produtor ganha em produtividade. O pequeno ganha com o manejo e com a venda do mel”, explicou.
A presidente também destacou a necessidade de adaptação diante do estresse hídrico e térmico, que pressiona custos e produtividade no campo. Corredores verdes para formação de microclima e maior uso de bioinsumos estão entre as soluções discutidas com produtores.
“Cada vez está mais caro produzir. Se o solo e o clima estão desequilibrados, você compensa com mais insumo químico. O biológico passa a ser estratégico”, afirmou.
Segurança alimentar e lógica econômica
Ao ser questionada sobre o retorno financeiro direto para a empresa mantenedora Bunge, a presidente afirmou que não há mensuração específica. Segundo ela, o investimento responde a uma lógica sistêmica.
“O clima do Mato Grosso depende da preservação do Norte do país. Se degradamos aquela área, comprometemos a produção no principal celeiro do Brasil”, disse.
Ela defende que a pauta ambiental deixou de ser apenas reputacional e passou a ser econômica. “Sem polinizadores, não há produção. De 115 alimentos básicos da nossa cadeia, 87% dependem de polinização.”
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Fonte : CNN