Analistas ouvidos pelo CNN Money avaliam se a cautela global causada pela escalada da guerra no Oriente Médio pode respingar na política monetária brasileira e atrasar o processo de corte dos juros pelo BC (Banco Central) e deixar a Selic em patamar mais elevado que o projetado pelo mercado.
Os economistas ouvidos pela reportagem destacam que o cenário ainda é bastante incerto e que efeitos mais práticos dependem de uma série de variáveis, sobretudo a extensão das hostilidades.
Incerteza com ambiente externo
Em seus últimos comunicados, o Copom (Comitê de Política Monetária) já vinha transmitindo incertezas com o mundo, e em sua última decisão de juros, em janeiro, não foi diferente.
“O ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”, diz o comunicado da última reunião, que manteve a Selic em 15% ao ano, mas abriu portas para corte no próximo encontro.
O ponto nevrálgico das discussões está nos impactos do conflito na cotação do petróleo, já que o reflexo no preço dos combustíveis tende a pressionar uma cadeia de outros produtos pelo efeito cascata.
Economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale afirma que a preocupação gerada pelo impacto da guerra no Oriente Médio se soma à percepção negativa do mercado com os resultados da prévia da inflação de fevereiro, segundo dados do IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo — 15) publicados na sexta-feira (27).
“Não é o caso nesse momento, mas pode começar a virar uma preocupação lá na frente. De qualquer maneira, são elementos de incerteza para o Banco Central pensar”, explica.
O mercado prevê que a Selic encerre 2025 a 12%, estimativa mais baixa que a colhida na semana anterior, segundo números do Boletim Focus publicados nesta segunda-feira (2).
As informações foram colhidas no mercado na sexta-feira (27), antes dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e retaliação de Teerã a bases militares norte-americanas em países da região.
Há 22 semanas, o mercado aponta que a taxa de juros deve cair 0,5 ponto percentual na reunião de março do Copom. E para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e presidente do conselho de administração da JiveMauá, o cenário deve continuar assim.
“É cedo ainda para dizer, mas acho muito pouco provável que o Banco Central adie uma queda de juros por conta desse conflito. […] A não ser que tenha uma piora muito grande e vários fatores”, pondera Figueiredo, citando petróleo e taxa de câmbio entre os fatores que devem ficar no radar com a guerra.
“Pode até ser que o Banco Central seja um pouco mais conservador. O mercado hoje espera 50 pontos[-base] de queda, pode começar com 25, mas não mais do que isso”, pontuou.
Considerando os dados do IPCA-15 que não vieram favoráveis, o também ex-diretor do BC e colunista do CNN Money, Tony Volpon ressalta que a decisão “vai depender muito da foto do momento”, mas que se o cenário seguir como está, a autoridade monetária deve optar por corte de 0,25 ponto percentual.
Porém, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, apontou que o conflito no Irã pode eventualmente antecipar a parada do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central caso se intensifique um cenário de incerteza e de repasse para preços.
Reação do mercado
A guerra no Oriente Médio desencadeou um temor generalizado nos mercados acionários globais. O principal afetado foi o petróleo, que abriu em disparada de 12% e encerrou em alta de mais de 6%.
Nas bolsas, porém, a resposta foi amena. Os principais índices de ações dos Estados Unidos encerraram praticamente estáveis nesta segunda-feira (2), enquanto o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, fechou em alta de 0,28%, aos 189 mil pontos, com as perdas amenizadas pelo avanço da Petrobras.
Em nota, a estatal afirmou que, neste momento, não há risco de interrupção das importações e exportações de petróleo. A petroleira afirma que possui rotas alternativas fora da região de conflito envolvendo o território iraniano, estratégia que “dá segurança e custos competitivos para as operações da companhia, preservando as margens”.
Fabio Kanczuk, diretor de Macroeconomia do ASA e ex-diretor do BC, vê no conflito o potencial de “mudar todo o cenário” para o Copom. Contudo, devido a resposta do mercado, acha difícil a diretoria do Banco Central mudar a rota de seu trabalho.
Após outros grandes eventos que mexeram com o mundo recentemente, como a guerra de Israel na Faixa de Gaza, Kanczuk vê “o mercado considerando que o cenário básico é muito benigno mesmo”.
“Não parece que a ficha não caiu, o que parece é que a ficha é pequena mesmo”, pondera olhando para o movimento dos investidores.
Para além da extensão do conflito, o diretor de investimentos da Nomos, Beto Saadia, afirma que o mercado está de olho em como o Irã vai se reorganizar e o que isso vai signficar para o mundo.
“Vai ser o mesmo regime? O regime cai? Vai ser um regime mais secular? Um regime mais duro? Vai ser um regime mais aberto economicamente? É essa a grande dúvida”, conclui Saadia.
Ponto que os analistas convergem é que o momento é de avaliação até entender-se qual o tamanho da conta que a guerra trará ao país.
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Fonte : CNN