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Quando “O Agente Secreto“, de Kleber Mendonça Filho, estreou em Cannes 2025 e abocanhou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor, ficou claro que o Brasil teria mais uma temporada de premiações agitada. 

O que era inesperado, no entanto, era a dimensão das indicações. O filme repetiu os feitos de “Ainda Estou Aqui” nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Ator — desta vez com Wagner Moura — e Melhor Filme, e ainda conquistou uma indicação inédita: Melhor Elenco, categoria que faz estreia na premiação.

Para além das menções, “O Agente Secreto” ainda tem chances concretas de vitória, sobretudo na categoria mais simbólica: Melhor Filme Internacional.

O favoritismo não é brasileiro

Sejamos diretos: “O Agente Secreto” não é o favorito absoluto em nenhuma de suas quatro categorias.

Segundo os dados atuais do Gold Derby, o drama norueguês “Valor Sentimental“, de Joachim Trier, lidera Melhor Filme Internacional com 68% de probabilidade de vitória, contra 28% do filme brasileiro. Uma diferença relevante, mas longe de ser definitiva.

Mas o que torna o cenário instigante é o histórico recente da categoria. No ano passado, “Ainda Estou Aqui” chegou ao Oscar sem ter vencido nenhum grande precursor e mesmo assim levou o prêmio.

“O Agente Secreto” fez justamente o oposto: varreu os principais críticos americanos — venceu o New York Film Critics Circle, o Los Angeles Film Critics Association e o National Society of Film Critics — além do Globo de Ouro e do Critics Choice Award de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa.

A diferença em relação ao ano anterior é que “Ainda Estou Aqui” se beneficiou de um cenário de virada: o até então favorito, “Emilia Pérez”, perdeu força após as polêmicas envolvendo sua protagonista, Karla Sofía Gascón, abrindo caminho para a vitória brasileira.

Momento de fazer história

Há uma dimensão histórica em jogo que pode influenciar os votantes da Academia. Se “O Agente Secreto” vencer, o Brasil se tornará o primeiro país não-europeu a conquistar Melhor Filme Internacional em anos consecutivos — e o primeiro a realizar essa façanha em quase quatro décadas.

A última vez foi em 1987 e 1988, quando a Dinamarca venceu com “O Banquete de Babette” e “Pelle, o Conquistador”.

Antes disso, apenas Itália, França e Suécia repetiram o feito, em grande parte graças às obras de Federico Fellini, Ingmar Bergman e Jacques Tati. Colocar o Brasil nessa lista seria um marco sem precedentes para o cinema do hemisfério sul.

Pedra no sapato

A principal resistência ao filme brasileiro vem de “Valor Sentimental”. Com nove indicações ao Oscar — incluindo Melhor Diretor para Trier e Melhor Ator Coadjuvante para Stellan Skarsgård —, o drama norueguês acumula o tipo de apoio amplo e transversal que costuma ser decisivo na Academia.

Filmes com muitas indicações tendem a receber votos de diferentes alas do colégio eleitoral, criando uma base de sustentação difícil de superar. A lógica é simples: quanto mais categorias um filme disputa, mais membros da Academia — de áreas distintas — são obrigados a assisti-lo. E quem assiste, frequentemente vota.

Em entrevista à AFP, Trier resumiu bem o espírito com que encarou a temporada. Para ele, a indicação em si já é um reconhecimento dos colegas de profissão. Mas esse discurso de “já ganhamos ao ser indicados” pode ser lido de outra forma — como a postura de quem sabe que a estatueta é provável.

“O Agente Secreto” tem chances de ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional?

Há, no entanto, fatores que jogam a favor do filme brasileiro e que os números do Gold Derby, os demais veículos especializados, não capturam completamente.

O primeiro é a intensidade. A paixão dos brasileiros pela campanha do filme — que incluiu homenagens durante o Carnaval e subiu o longa do nono para o terceiro lugar nas bilheterias do país após as indicações ao Oscar — criou uma narrativa poderosa. E narrativas importam na Academia.

O segundo é o próprio desempenho do filme no circuito de críticos americanos. Vencer as três principais associações de críticos dos Estados Unidos é raro e significativo: indica que o filme foi visto, discutido e amado por pessoas que entendem profundamente de cinema.

O terceiro fator é político — e o momento não poderia ser mais propício. Com a ascensão de movimentos autoritários em diferentes partes do mundo, filmes que tratam de resistência a ditaduras militares têm encontrado ressonância particular junto aos membros da Academia.

“Ainda Estou Aqui” surfou essa onda em 2025, e “O Agente Secreto”, ambientado no mesmo período histórico, pode fazer o mesmo.

O clima político no próprio circuito de festivais reforça essa leitura. Este ano, no Festival de Berlim, mais de 80 artistas — entre eles Fernando Meirelles, Tilda Swinton e Javier Bardem — assinaram uma carta aberta exigindo posicionamento sobre a guerra em Gaza, evidenciando que a classe artística global está cada vez menos disposta a separar cinema de consciência política.

Nesse contexto, um filme como “O Agente Secreto” chega à cerimônia carregado de significado extra.

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Fonte : CNN

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