O atual cenário global enfrenta um desafio sem precedentes que emana diretamente de Washington, capital dos Estados Unidos, e do movimento político liderado pelo presidente norte-americano Donald Trump. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas), Eduardo Mello, durante participação no programa “WW Especial”, da CNN Brasil.
Em análise sobre as transformações na geopolítica, Mello destacou que, embora o impacto da atual gestão americana seja permanente, a ordem internacional liberal baseada em regras ainda resiste através de outros grandes atores globais e instituições multilaterais.
“A gente não vive ainda num mundo no qual todas as potências — as grandes potências, os grandes players, como China, União Europeia e Japão — tenham abandonado a ideia de uma ordem internacional liberal baseada em regras”, afirma.
Para o professor da FGV, o processo de mudança é complexo e encontra oposição até mesmo dentro da base política do presidente Trump.
“Mesmo nos Estados Unidos e mesmo dentro do Partido Republicano, há forças que atuam contra esse processo. Então, é um processo que certamente não será o mesmo que era antes de Trump ou mesmo quando ele sair do poder”, explica.
Mello argumenta que a cooperação internacional ainda encontra fôlego em organizações como a OMC (Organização Mundial do Comércio) e a OMS (Organização Mundial da Saúde), sustentadas por países que se recusam a abandonar o multilateralismo.
Além disso, ele critica a eficácia da chamada “diplomacia das canhoneiras”, baseada na força e na coerção constante, classificando-a como uma estratégia ultrapassada e de alto custo.
“Isso não é eficiente. Os líderes americanos do pós-Segunda Guerra tiveram uma grande visão de que isso é, no longo prazo, ineficiente, porque o uso constante de coerção é particularmente custoso, é muito custoso”, ressalta.
O professor utiliza a tensão dos EUA com o Irã como exemplo prático das limitações do poder militar absoluto, ressaltando que decisões extremas possuem consequências domésticas, como custos financeiros e perda de vidas americanas, que funcionam como um freio ao próprio presidente.
Para Eduardo Mello, a política externa fundamentada apenas na pressão e em táticas de confronto pode gerar engajamento imediato, mas falha como estratégia de Estado.
“Acredito que um mundo que viva apenas com base na coerção, em que a coerção seja a principal ferramenta, usada no dia a dia da política internacional, pode até funcionar muito bem no jogo das redes sociais de Trump. Mas, no longo prazo, para uma política conduzida por estadistas, isso é insustentável”, conclui.
WW Especial
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
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*Publicado por Jorge Fernando Rodrigues
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Fonte : CNN