A escalada militar envolvendo o Irã reacendeu o temor de um choque global de energia semelhante ao ocorrido em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Desta vez, porém, o impacto pode ser ainda mais direto sobre o mercado petrolífero, dada a importância do Golfo Pérsico para o abastecimento mundial.
Analistas avaliam que o cenário, embora grave do ponto de vista geopolítico, pode gerar benefícios relevantes para o Brasil — especialmente para o setor petrolífero e para o câmbio.
Flávio Gualter Inácio Inocêncio – diretor da Helios Advisory, a situação é preocupante e pode provocar uma disparada nos preços. “Estou acompanhando e preocupado. A situação é grave. Na minha análise, os preços podem atingir US$ 100 por barril nas próximas semanas”, afirma à CNN Brasil.
O principal risco, segundo ele, é um eventual bloqueio do Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde escoa cerca de um quinto do petróleo mundial.
“Mesmo que a Arábia Saudita e os Estados do Golfo aumentem a oferta, não há como exportar sem o desbloqueio do estreito de Ormuz”, explica.
Como o Irã integra a Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados), e as decisões do cartel são tomadas por consenso, a capacidade de reação coordenada pode ser limitada.
Num cenário de bloqueio prolongado, os preços poderiam ultrapassar US$ 130 por barril. “Tudo depende da duração da guerra. Se for um conflito rápido, os preços podem depois baixar. Antes deste conflito, trabalhávamos com uma projeção em torno de 60 dólares”, destaca.
Impacto em outros mercados
“Há um efeito de arrasto. O gás natural será o mais impactado por causa do efeito de substituição”, afirma o analista. Commodities minerais também podem subir, impulsionadas pelo receio de escassez.
Historicamente, choques energéticos elevam custos logísticos, pressionam alimentos e reforçam movimentos especulativos em matérias-primas.
Se para a economia global o cenário é de tensão, para o setor de óleo e gás brasileiro a leitura é mais positiva. “O setor petrolífero brasileiro será beneficiado”, afirma Inocêncio.
Com produção próxima de 3,7 milhões de barris por dia, o Brasil ganha relevância estratégica como fornecedor fora do eixo de conflito. Empresas como a Petrobras tendem a ampliar receitas e margens em um ambiente de preços elevados.
O aumento da receita com exportações pode reforçar o superávit comercial e melhorar os termos de troca do país.
Real pode ganhar força
Já o economista Robin Brooks, ex-economista-chefe do Institute of International Finance (IIF) e ex-estrategista-chefe de câmbio do Goldman Sachs, avalia que o contexto atual difere substancialmente de 2022. Naquele momento, a valorização do real foi essencialmente uma reação direta ao choque de commodities provocado pela invasão da Ucrânia pela Rússia. A alta expressiva do petróleo, grãos e metais melhorou rapidamente os termos de troca do Brasil e fortaleceu a moeda.
Agora, segundo ele, o movimento é mais estrutural e apoiado em dois vetores simultâneos.
O primeiro é o enfraquecimento mais amplo do dólar frente às moedas emergentes, reflexo de um ambiente de maior questionamento institucional nos Estados Unidos e de mudanças na dinâmica global de fluxos de capitais. Ou seja, não é apenas o real que está se valorizando — há um movimento generalizado contra o dólar.
O segundo fator é a subvalorização histórica do real desde a pandemia. A moeda brasileira sofreu uma forte depreciação em 2020 e, mesmo com a melhora consistente da balança comercial e do setor externo nos anos seguintes, nunca retornou aos níveis considerados compatíveis com seus fundamentos macroeconômicos.
“O real continua profundamente descontado em relação ao período pré-Covid. O argumento de subvalorização voltou ao radar dos mercados”, destaca Brooks.
Nesse contexto, um novo choque positivo nos termos de troca — caso a tensão envolvendo o Irã mantenha o petróleo em patamares elevados — não seria o único motor da valorização cambial, mas sim um catalisador adicional dentro de uma tendência que já vinha se formando.
Benefícios e limites para a economia
Embora o setor petrolífero e o saldo comercial sejam beneficiados, há efeitos colaterais internos.
Diferentemente de vários países, o Brasil não mantém subsídios amplos aos combustíveis. Assim, a alta internacional tende a ser repassada aos preços domésticos, pressionando inflação, custos de transporte e atividade econômica, lembram os analistas.
source
Fonte : CNN