O Paquistão bombardeou forças governamentais do Talibã nas principais cidades do Afeganistão durante a madrugada desta sexta-feira (27), sendo a primeira vez que atacou diretamente seus antigos aliados.
O governo paquistanês em seguida descreveu a situação como “guerra aberta”, aumentando as tensões em uma região instável e com armas nucleares.
Os ataques paquistaneses atingiram a capital afegã, Cabul, e a cidade de Kandahar, onde líderes do Talibã estão baseados. Foi a primeira vez que Islamabad atacou o Talibã em vez de militantes supostamente apoiados por eles, uma ruptura drástica nas relações entre os vizinhos islâmicos.
Fontes de segurança no Paquistão disseram que os ataques envolveram mísseis ar-terra contra escritórios e postos militares do Talibã em Cabul, Kandahar e na província de Paktia. Houve confrontos terrestres em vários setores ao longo da fronteira entre as nações islâmicas.
Os dois lados relataram pesadas baixas, divulgando números bastante divergentes que a Reuters não conseguiu verificar de forma independente.
“Nossa paciência se esgotou. Agora é guerra aberta entre nós e vocês (Afeganistão)”, disse o ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Muhammad Asif, nesta sexta-feira (27).
Os ataques ameaçam desencadear um conflito prolongado ao longo da fronteira de 2.600 km, com as relações entre Cabul e Islamabad abaladas por uma longa disputa sobre a acusação do Paquistão de que o Afeganistão abriga militantes que realizam ataques do outro lado da fronteira.
O Talibã negou a acusação e afirmou que a segurança do Paquistão é um problema interno.
O Paquistão possui armas nucleares e suas capacidades militares são muito superiores às do Afeganistão. No entanto, o Talibã é especialista em guerra de guerrilha, tendo adquirido experiência em décadas de combates com as forças lideradas pelos EUA, antes de retornar ao poder em 2021.
Rússia, China, Turquia e Arábia Saudita estavam tentando mediar a situação, segundo diplomatas e notícias.
O Irã, que faz fronteira com o Afeganistão e o Paquistão, também ofereceu ajuda, de acordo com seu Ministério das Relações Exteriores. A oferta surgiu em meio a negociações cruciais entre Teerã e Washington para resolver a antiga disputa nuclear e evitar novos ataques dos EUA.
Ataque com drones
O porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, confirmou que as forças paquistanesas realizaram ataques aéreos em partes de Cabul, Kandahar e Paktia, mas não forneceu detalhes.
Nesta sexta-feira (27), o Ministério da Defesa do Talibã afirmou ter “realizado com sucesso” ataques aéreos com drones contra alvos militares no Paquistão.
O ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, disse que os ataques foram realizados por militantes do Talibã paquistanês e que todos os drones foram abatidos por sistemas antidrone, “sem vítimas”.
Vídeos compartilhados por autoridades de segurança paquistanesas mostraram clarões à noite, provenientes de disparos ao longo da fronteira, e o som de artilharia pesada.
Um vídeo dos ataques em Cabul, cuja localização a Reuters conseguiu verificar, mostrava densas colunas de fumaça preta subindo de dois locais e um grande incêndio em parte da capital.
Tamim, um taxista de Cabul, disse que estava dormindo quando ouviu o som de uma aeronave, seguido por ataques a um local que parecia ser um depósito de armas.
“Acordamos e o avião chegou, lançou duas bombas e foi embora. Depois disso, ouvimos explosões”, relatou ele. “Todos, em pânico, desceram correndo do segundo andar da casa. A munição dentro do depósito continuava explodindo sozinha.”
Testemunhas da Reuters em Cabul disseram que muitas sirenes de ambulâncias podiam ser ouvidas após as fortes explosões e o som dos jatos.
Mosharraf Zaidi, porta-voz do governo paquistanês, afirmou em uma publicação na rede social X que a ação foi uma resposta a “ataques afegãos não provocados”, acrescentando que 133 combatentes talibãs afegãos foram mortos e mais de 200 ficaram feridos, com 27 postos destruídos e nove capturados.
Mujahid, porta-voz do Talibã, disse que 55 soldados paquistaneses foram mortos e 19 postos tomados, enquanto oito combatentes talibãs foram mortos, 11 ficaram feridos e 13 civis ficaram feridos na província de Nangarhar.
Alta segurança
Os confrontos entre o Paquistão e o Afeganistão em outubro deixaram dezenas de soldados mortos, até que negociações facilitadas pela Turquia, Catar e Arábia Saudita puseram fim às hostilidades.
O Paquistão está em alerta máximo de segurança desde que lançou ataques aéreos no início desta semana, que, segundo Islamabad, visaram campos do Tehreek-e-Taliban (TTP), ou Talibã paquistanês, e militantes do Estado Islâmico no leste do Afeganistão.
Cabul e as Nações Unidas afirmaram que os ataques mataram 13 civis e reiteraram que não permitem que militantes operem em seu território. O Talibã também advertiu que haverá uma forte resposta.
O governo da província de Punjab, no Paquistão, afirmou na sexta-feira estar em alerta máximo para possíveis ataques de militantes e ter realizado uma série de operações de segurança, levando 90 cidadãos afegãos para centros de detenção para deportação.
A agência de notícias estatal Bakhtar, de Nangarhar, no Afeganistão, divulgou uma imagem do que alegou ser um batalhão de homens-bomba e citou uma fonte de segurança afegã afirmando que os terroristas estavam equipados com coletes explosivos e carros-bomba e preparados para atacar alvos importantes.
Autoridades paquistanesas afirmaram nos últimos dias temer uma escalada dos ataques de militantes em centros urbanos.
source
Fonte : CNN