O GPA, grupo controlador da rede de supermercados Pão de Açúcar, registrou um prejuízo líquido de R$ 560 milhões no quarto trimestre de 2025.
Apesar de representar uma redução de 48,2% em comparação ao mesmo período de 2024, o que acendeu o alerta no mercado foi o montante de dívidas previstas para vencer ao longo do ano, que alcança R$ 1,7 bilhão.
No balanço divulgado, o próprio GPA destacou uma “incerteza relevante” sobre a continuidade operacional da companhia.
Diante desse cenário, a empresa anunciou que vem adotando medidas para melhorar sua situação financeira, incluindo negociações para alongamento da dívida, redução de custos financeiros e despesas, além da monetização de créditos tributários.
Com as medidas, a empresa quer melhorar o perfil de liquidez, considerando a concentração de vencimentos prevista para este ano. O objetivo é evitar o risco de descontinuidade operacional da companhia.
A empresa disse, em comunicado, que segue monitorando indicadores para a adoção de outras alternativas, com foco na sustentabilidade financeira e execução da estratégia.
O que acontece agora?
Phil Soares, chefe de análise na Options, avalia que o GPA “muito provavelmente vai continuar sua operação”, apesar do cenário desafiador. Segundo ele, o problema central está na estrutura de capital da empresa, que possui uma dívida financeira bruta de aproximadamente R$ 8 bilhões.
“O endividamento no Brasil é muito caro e muitas dessas empresas têm endividamento relevante”, afirmou Soares.
Para Ana Paula Tozzi, CEO da AGR, o primeiro passo para a companhia melhorar a sua situação financeira é a renegociação das dívidas e a busca pela eficiência operacional com a redução de custos e despesas.

Além disso, Tozzi ressalta que o GPA tem um desafio de mostrar para o mercado e convencer os investidores que a estratégia adotada é consistência e eficiência
“Eu sou menos pessimista com a companhia, acho que esse buzz após o balanço foi importante porque a empresa vai precisar negociar melhor com os seus credores e fornecedores para que ela ganhe mais fôlego”, avalia.
Em entrevista ao CNN Money, a CEO da AGR ainda ressaltou que não interessa a ninguém que a operação do GPA falhe.
De acordo com Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, o GPA tem três possíveis rotas estratégicas neste momento: fechar lojas menos rentáveis; fortalecimento do balanço com a redução da dívida por meio da venda de ativos e geração de receita; e uma restruturação societária com a possibilidade de fusão ou venda de participação na companhia.
“Em um cenário otimista, a queda consistente da Selic pode ajudar a recuperação do consumo e na expansão de margem. No nosso cenário base, com ajuste lentos, a margem melhora um pouco e a ação anda de lado. E, no cenário negativo, a margem não recupera, o fluxo de caixa fica fraco e vem uma nova pressão financeira”, analisa Lage.
Como o GPA chegou até aqui?
O GPA, que já foi uma das maiores empresas da bolsa brasileira, vem passando por um longo ciclo de deterioração, segundo a avaliação do economista Felipe Paletta, uma série de problemas contribuíram para o cenário atual da companhia
“O GPA sempre teve o Abílio [Diniz] como uma referência e depois que os franceses [Grupo Casino] entraram no negócio, as decisões foram muito pulverizadas. Os próprios problemas do Casino lá fora geraram várias repercussões aqui, que acabou se desfazendo de muitos negócios para conseguir gerar caixa”, relembra.
Tozzi, CEO da AGR, concorda que o resultado divulgado nesta semana não é resultado do último trimestre do ano passado, mas, de “um consistente acúmulo de prejuízos”, que trouxe a necessidade de buscar mais caixa, aumentando o endividamento.
“Temos que olhar para o GPA nos últimos dois anos, com a troca de comando da companhia nós vimos uma dificuldade estratégica. Afinal de contas, vai ser um supermercado premium ou vai ter foco no atacado? Tem um pouco de crise identidade nesse sentido.”
Tozzi destaca também que o pano de fundo de juros elevados não contribui para a situação da empresa. “A expectativa de queda de juros, que não aconteceu, faz com que o custo de carregamento da dívida seja maior do que a capacidade de geração de caixa.”
Para Paletta, em um cenário de queda lenta no ciclo de juros, o GPA pode sofrer ainda mais para conseguir equilibrar as contas.
“Neste momento, estamos vivendo um processo de desaceleração da atividade econômica no Brasil, o que acaba prejudicando muito o setor de alimentação, e, dado que o Pão de Açúcar é um pouco mais premium em um segmento tão competitivo como é o varejo, ele está sofrendo muito com a conjuntura.”
Soares, da Options, também apontou uma transformação significativa no setor varejista de alimentos nos últimos 10 a 15 anos.
“O que a gente observou foi um desmonte do setor de supermercados e um ganho muito grande de espaço do atacarejo”, explicou. Segundo o analista, o modelo de atacarejo tem se destacado por sua competitividade de preços, sem foco em serviço ou localização.
Esta mudança estrutural no mercado coloca em xeque o modelo tradicional de supermercados. “O modelo de supermercado stand-alone, sem atacarejo, sem atacado, realmente entra em questionamento e uma crise existencial, podendo até se extinguir ou existir somente associado a outros tipos de loja que justifiquem a logística”, destacou.
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Fonte : CNN