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O nome da bióloga Tatiana Coelho Sampaio ganhou destaque recentemente com a divulgação dos resultados de sua pesquisa sobre polilaminina, uma proteína capaz de regenerar células da medula espinhal.

O tratamento, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o laboratório Cristália, despertou esperança em pacientes com lesão medular e provocou fila de pessoas interessadas.

Porém, a polilaminina não foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) até o momento e ainda é um tratamento em fase experimental.

 

A substância é mais eficaz quando aplicada em até 72 horas após a lesão, segundo os pesquisadores. Mas enquanto aguarda autorização regulatória, qual é o cenário de tratamentos disponíveis para lesão medular no Brasil?

Quando uma pessoa sofre lesão medular, o dano não se limita ao momento do trauma. Segundo médico ortopedista Guilherme Foizer, especialista em cirurgia da coluna vertebral e integrante do corpo assistencial do grupo de coluna do Hospital Estadual Mário Covas, vinculado à Faculdade de Medicina do ABC, o processo é mais complexo.

“Logo após o momento do trauma existe uma segunda lesão. Tem a lesão inicial e a segunda fase, que envolve um processo chamado de cascata inflamatória, com inflamação, edema, que vai levar a uma falta de oxigenação desse tecido e uma morte progressiva daquelas células nervosas.”

A medula espinhal funciona como via de transmissão entre o cérebro e o resto do corpo. Quando interrompida, causa limitações severas como paraplegia (perda dos membros inferiores) ou tetraplegia (comprometimento dos movimentos do pescoço para baixo). As lesões ocorrem frequentemente por acidentes de trânsito, quedas ou mergulhos.

O tratamento de lesão medular se baseia em três pilares, segundo Foizer. O primeiro é o tratamento clínico intensivo, que estabiliza a hemodinâmica do paciente —mantendo a pressão de perfusão dos tecidos, a oxigenação adequada, o controle da dor e a prevenção de complicações respiratórias.

O segundo pilar é a intervenção cirúrgica. Quando há instabilidade na coluna ou compressão da medula por fragmentos ósseos, a cirurgia descomprime a medula e estabiliza a coluna, evitando progressão do dano neurológico e facilitando reabilitação mais precoce.

“Quando tiver indicação naquele paciente que tem uma lesão na coluna, com uma instabilidade que vai causar lesões adicionais, como se a coluna estiver quebrada, se tiver uma espícula, um espinho de osso perto da medula, a medula pode ter uma lesão secundária na movimentação”, afirma Foizer.

O terceiro pilar, igualmente fundamental, é a reabilitação com fisioterapia, terapia ocupacional, reabilitação motora e acompanhamento psicológico, que deve começar o mais cedo possível.

Atendimento imediato é crucial

O tempo entre o trauma e o atendimento hospitalar é determinante. Foizer enfatiza que o atendimento pré-hospitalar adequado, com imobilização cuidadosa e transporte seguro para hospital de referência, é fundamental para evitar lesões secundárias.

No hospital, exames de imagem como tomografia e ressonância magnética determinam o tipo e a gravidade da lesão.

João Paulo Bergamaschi, médico ortopedista especialista em coluna vertebral, vice-presidente da Sociedade Interamericana de Cirurgia Minimamente Invasiva da Coluna e coordenador da pós-graduação em cirurgia endoscópica de coluna na USP Ribeirão Preto, afirma que a cirurgia deve ser realizada o quanto antes.

“A ressonância magnética é talvez o exame um pouco mais preciso para a gente poder realmente ter o máximo de informação em relação a esse diagnóstico. Mas a cirurgia o quanto antes for realizada é melhor”, afirma Bergamaschi.

Reabilitação intensiva e medicações

Após a cirurgia, a reabilitação intensiva, realizada diariamente, é responsável por estimular a recuperação funcional. Segundo Bergamaschi, a abordagem combina estabilização cirúrgica, descompressão e medicações que estimulam cicatrização e regeneração.

“Uma combinação muitas vezes ali da parte cirúrgica, de estabilização e de descompressão, da reabilitação intensiva, que aí realmente é a reabilitação todos os dias, e algumas medicações que podem realmente estimular um processo ali de cicatrização e regeneração.”

Os resultados variam conforme o tipo de lesão. Nas parciais, pacientes podem recuperar movimento e função motora. Nas totais, o déficit neurológico persiste na maioria dos casos, embora qualquer recuperação seja bem-vinda.

Orlando Maia, neurocirurgião do Hospital Quali Ipanema e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, destaca a importância funcional de pequenas recuperações.

“Quando você tem uma perda de movimento importante, qualquer recuperação de movimento é muito bem-vinda e excelente. Às vezes, isso traduz em autonomia. O movimento voluntário, às vezes, é a parte respiratória, é a capacidade de urinar. Tem uma série de situações que são importantes, controle da bexiga, controle da urina, controle das fezes”.

Terapias experimentais

Nos últimos anos, a ciência investiga terapias experimentais voltadas à regeneração neural, como células-tronco e biomateriais. A polilaminina entra nesse contexto, mas Foizer adverte sobre a necessidade de cautela.

“A polilaminina é uma substância derivada de proteínas da matriz extracelular. Em estudos experimentais com outras espécies, mostrou o potencial de estimular o crescimento do nervo, do axônio, e também neuroproteção.”

Para Foizer. no entanto, ainda não há trabalhos que possam justificar o uso amplo da substância em fase de pesquisa.

O especialista explica que a polilaminina necessita de infiltração dentro da medula, e uma injeção nesse local já seria prejudicial por si só. “A gente está nas fases iniciais, a gente não possui evidência robusta suficiente para o uso clínico.”

Bergamaschi reconhece o potencial da substância, mas também aponta para a fase inicial da pesquisa.

“A laminina, ou a polilaminina, é uma substância que ainda está sendo pesquisada. Dá um resultado muito promissor. Inicialmente, essa substância vai ser utilizada em pacientes com lesão aguda da medula, e, obviamente, vão analisar, além da segurança do seu uso, os efeitos realmente que foram encontrados em humanos”.

Choque medular

Um aspecto importante frequentemente negligenciado é o choque medular. Foizer explica que nem sempre o déficit apresentado imediatamente após o trauma é o déficit permanente do paciente.

“Na maioria das vezes, os cirurgiões observam que os déficits que os pacientes apresentam no momento do traumatismo, eles são déficits que melhoram mesmo na ausência de qualquer terapia experimental. Isso também é chamado de choque medular e deve ser considerado nas pesquisas que estão sendo feitas.”

Desafio da cicatriz glial

Orlando Maia explica uma das principais barreiras biológicas para recuperação: a cicatriz glial.

“Quando você rompe desconecta um lado ao outro a cicatriz ela faz como se ela tivesse sendo independente um lado do outro ela desconecta um lado do outro e ela fecha aquela porta de entrada então essa cicatriz de glial ela acaba impedindo essa nova conexão.”

Por isso, a ciência tenta agir rapidamente, antes que a cicatriz glial se desenvolva completamente, buscando restabelecer a conexão neural através de drogas ou outras intervenções.

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Fonte : CNN

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