O CNE (Conselho Nacional de Educação) deve levar a voto, no próximo dia 16 de março, o parecer que define as regras para o uso de inteligência artificial nas instituições de ensino do país – diretrizes que valerão desde a educação básica até as universidades.
O documento, que começou a ser avaliado nesta segunda-feira (23), passou por ajustes pontuais a pedido do MEC (Ministério da Educação) antes da aprovação final. O projeto é fruto de um extenso trabalho de um ano e meio, envolvendo diálogos entre o governo federal, a Unesco e especialistas do setor.
Impacto da IA em sala de aula
O relatório indica que, embora a tecnologia deva ser integrada ao currículo educacional, é importante destacar o uso da IA como suporte, e não como substituta do educador.
O texto barra expressamente a automação plena de atividades pedagógicas, garantindo que o protagonismo e a decisão final sobre o processo de aprendizagem permaneçam com os profissionais da educação.
Na prática, isso significa que, embora a ferramenta possa auxiliar em tarefas burocráticas ou na correção de provas objetivas, o professor continua sendo o único responsável pela análise qualitativa e pela correção de avaliações dissertativas e formativas.
Além do uso em sala de aula, o parecer foca na reestruturação da formação docente. As redes de ensino e os cursos de licenciatura deverão preparar os profissionais para lidar com a análise de dados educacionais e para atuar em ambientes híbridos com senso crítico e ética.
Para os alunos, o objetivo é promover um letramento digital que vá além da operação técnica, contemplando a compreensão sobre o funcionamento dos modelos de IA, seus benefícios e, principalmente, seus riscos associados.
Geração “AI Natives”
A popularização do uso da IA está diretamente relacionada à redefinição de como crianças e adolescentes aprendem nos dias atuais.
Os chamados “AI Natives” crescem interagindo com ferramentas de inteligência artificial antes mesmo de consolidarem hábitos tradicionais de estudo e isso já altera o ritmo de aprendizagem, a organização do pensamento e o próprio papel da escola. Neste contexto a IA deixou de ser apoio e se tornou ambiente cognitivo.
As evidências confirmam essa mudança. O relatório “Teaching the AI Native Generation” (Ensinando a Geração Nativa de IA, em português), da Oxford University Press, mostra que oito em cada dez adolescentes de 13 a 18 anos utilizam IA nos estudos, tanto na escola quanto em casa.
E não apenas para tarefas simples: mais de 90% afirmam que a tecnologia já fortaleceu habilidades como resolução de problemas, clareza argumentativa, criatividade e preparação para provas. Alunos relatam que a IA “organiza pensamentos”, “facilita a compreensão de matemática” e “quebra ideias complexas em partes entendíveis”.
O especialista em IA Douglas Torres, fundador e CEO da YUP Chat – empresa que constrói soluções inteligentes para o relacionamento com clientes online, analisa que toda geração é impactada por uma grande tecnologia, mas a dos AI Natives é a primeira a ter a cognição moldada por modelos inteligentes desde cedo.
“O desafio do sistema educacional brasileiro é claro, garantir que essa interação estimule pensamento crítico, criatividade e responsabilidade digital. Isso exige currículos com IA integrada, formação continuada de professores, protocolos de segurança e práticas pedagógicas que combinem o melhor da tecnologia com mediação humana qualificada”, explica Torres.
A presença da inteligência artificial no cotidiano dos estudantes não é mais uma tendência distante, mas uma realidade que já transforma a forma como crianças e jovens aprendem, pesquisam e produzem conhecimento.
O supervisor de tecnologia educacional da SAEA (Sociedade Agostiniana de Educação e Assistência), Adriano Blanco, adverte que o tema suscita um debate amplo sobre todos os cenários possíveis.
Para o especialista, a adoção da IA pode representar um salto de qualidade no processo educacional quando usada de forma adequada. Ele destaca que o principal benefício é a ampliação das possibilidades de aprendizagem, permitindo aos alunos personalizar seu ritmo e aprofundar conteúdos com autonomia. “A IA potencializa e diversifica o conhecimento”. E completa: “Esse é o aspecto que mais torna a tecnologia uma aliada, pois ferramentas inteligentes oferecem apoio contínuo, orientação personalizada e disponibilidade, facilitando o dia a dia dos estudantes”.
IA nas escolas: próximos passos
Após a aprovação pela comissão em março, a proposta ainda passará por uma fase de consulta pública para ouvir a sociedade civil.
O passo seguinte será a votação no plenário do conselho e, por fim, o envio para a homologação do Ministro da Educação, momento em que as regras passarão a nortear oficialmente o sistema educacional brasileiro.
source
Fonte : CNN