A derrubada das tarifas unilaterais de Donald Trump pela Suprema Corte dos Estados Unidos, conforme decisão divulgada nesta sexta-feira (20), deve provocar uma reorganização do comércio internacional, com efeitos graduais sobre empresas, consumidores e acordos comerciais, segundo representantes da indústria e especialistas ouvidos pela CNN.
A medida, tomada por maioria de 6 a 3, não trouxe clareza sobre uma questão central: o destino dos recursos já arrecadados pelo governo norte-americano com as tarifas.
A possibilidade de reembolsos tem sido um dos pontos mais sensíveis do caso, com integrantes da administração Trump afirmando que eventuais devoluções poderiam ter consequências significativas para a economia dos Estados Unidos.
Uma possível restituição de valores, por sua vez, tende a ser discutida principalmente dentro do próprio país. Em entrevista ao CNN Money, Fernando Pimentel, CEO da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), afirmou que essa agenda “deve ser conduzida pelas empresas que arcaram com o imposto e têm a documentação para questionar”.
As alíquotas impostas pela gestão Trump ampliaram de forma expressiva a arrecadação tarifária dos Estados Unidos, que cresceu quase 200% em 2025 na comparação com 2024.
Carlos Primo Braga, ex-diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial e professor associado da Fundação Dom Cabral, afirmou que as receitas atingiram US$ 287 bilhões no ano passado, sendo cerca de US$ 175 bilhões provenientes de tarifas baseadas na IEEPA (International Emergency Economic Powers Act).
Apesar disso, a decisão da Suprema Corte levanta dúvidas sobre a devolução desses valores. Braga considera o tema “extremamente complicado” e avalia que “o governo vai resistir” a eventuais reembolsos.
O especialista ressalta ainda que nem todas as tarifas devem desaparecer, como aquelas impostas sobre aço e alumínio com base na Seção 232, justificadas por razões de segurança nacional.
Logo após a decisão da Suprema Corte, Donald Trump anunciou uma nova taxa global de 10%.
A tarifa será implementada com base em uma lei comercial conhecida como Seção 122, que autoriza o presidente a impor tarifas de até 15% por até 150 dias para corrigir desequilíbrios na balança de pagamentos ou restrições comerciais. Após o período, o Congresso americano deve decidir sobre a permanência das alíquotas.
Apesar do tom agressivo do discurso, os mercados financeiros reagiram de forma positiva ao anúncio, com altas ao redor do mundo e o Ibovespa batendo novo recorde, fechando acima dos 190 mil pontos pela primeira vez.
Segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, a tarifa imposta pelo presidente norte-americano poderia ter sido maior, e, por esse motivo, o mercado reagiu com otimismo à declaração.
A especialista avalia que essa reação se deve ao fato de que as novas tarifas são temporárias e menores do que as anteriores, o que diminui as incertezas.
“Acho que até ontem a situação estava ainda pior do que ela vai se tornar a partir desses três dias que ele pretende implementar essa nova tarifa de 10%, que é uma tarifa emergencial e temporária”, afirmou.
Para o Brasil e outros mercados emergentes, a especialista acredita que o afastamento das incertezas acaba sendo benéfico, mesmo que as tarifas de 10% sejam piores do que a remoção total das taxas.
“O mercado em momento algum precificou que Trump não faria alguma retaliação ou não tentaria retomar as tarifas”, destacou.
Zogbi ressaltou ainda que o “risco Trump” já vinha sendo precificado pelo mercado, com investidores buscando proteção em outros mercados fora dos Estados Unidos.
“No ano passado já vimos um pouco disso, um movimento de rotação dos investimentos para fora dos Estados Unidos, para outros países do mundo, Europa, enfim”, concluiu.
Recuperação cautelosa
No setor produtivo, a expectativa é de recuperação. Eduardo Lobo, representante da Abipesca, afirmou ao CNN Money que o segmento previa exportar cerca de US$ 600 milhões em 2023, mas alcançou pouco mais de US$ 400 milhões em razão das tarifas elevadas.
Com a tarifa global de 10%, o cenário muda significativamente. “Assim ficamos competitivos, voltamos ao jogo internacional”, afirmou.
Segundo Lobo, a retomada do mercado norte-americano pode impulsionar não apenas as receitas, mas também o emprego. Ele estima que entre 4 mil e 5 mil postos de trabalho tenham sido perdidos e acredita que as contratações podem ser retomadas rapidamente.
Por outro lado, o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Roberto Azevedo, alerta para o ambiente de incerteza gerado pelas sucessivas mudanças e pela possibilidade de novas retaliações comerciais.
Para ele, a imprevisibilidade prejudica investimentos, compromete a geração de empregos e pode levar a uma desaceleração econômica.
“O que cria o dinamismo econômico são os investimentos. E, se tem uma coisa que o investidor detesta, é a imprevisibilidade”, concluiu.
source
Fonte : CNN