Militares dos EUA continuam a reforçar significativamente seus recursos aéreos e navais no Oriente Médio antes das negociações com o Irã em Genebra, nesta terça-feira (16).
As medidas visam tanto intimidar Teerã quanto garantir opções de ataque dentro do país, caso as negociações sobre seu programa nuclear fracassem, segundo diversas fontes familiarizadas com o assunto, em declarações à CNN.
Segundo fontes familiarizadas com as movimentações, os recursos da Força Aérea dos EUA baseados no Reino Unido, incluindo aviões-tanque de reabastecimento e caças, estão sendo reposicionados mais perto do Oriente Médio.
Os EUA também continuam enviando sistemas de defesa aérea para a região, segundo um oficial americano, e várias unidades militares americanas destacadas na região, que seriam retiradas nas próximas semanas, tiveram seus mandatos prorrogados, afirmou uma fonte familiarizada com o assunto.
Dezenas de aviões de carga militares americanos transportaram equipamentos dos EUA para a Jordânia, Bahrein e Arábia Saudita nas últimas semanas, de acordo com dados de rastreamento de voos.
Na noite de sexta-feira, várias aeronaves de combate também receberam autorização diplomática para entrar no espaço aéreo jordaniano, de acordo com comunicações de tráfego aéreo de código aberto. Imagens de satélite mostram que 12 aviões de ataque F-15 dos EUA estão posicionados na Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, desde 25 de janeiro.
De forma mais abrangente, dados de voos de código aberto revelam que houve mais de 250 voos de carga dos EUA para a região.
O presidente Donald Trump vem ameaçando uma ação militar contra o Irã há semanas, desde o mês passado, quando alertou os líderes iranianos de que estava preparado para ordenar um ataque caso o governo não parasse de matar manifestantes. E na sexta-feira, ele afirmou acreditar que a mudança de regime “seria a melhor coisa que poderia acontecer” no Irã.
O aumento dos recursos militares e a ênfase dada por Trump e membros importantes do governo à preferência por uma mudança de regime deixam a região em alerta e elevam a importância das negociações desta terça-feira.
A expectativa é que as conversas na Suíça sejam lideradas pelo enviado de Trump, Steve Witkoff, e seu genro, Jared Kushner, pelo lado americano, com o Irã representado pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.
“Ninguém sabe” quem assumiria o controle do Irã
Mas, segundo duas fontes familiarizadas com o assunto, o governo americano parece ainda não ter uma compreensão clara do que aconteceria se derrubasse o regime iraniano.
O secretário de Estado, Marco Rubio, reiterou isso durante uma audiência no Congresso no final do mês passado, dizendo aos parlamentares que “ninguém sabe” quem assumiria o poder se o regime caísse.
As alternativas prováveis podem ser ainda mais problemáticas para os EUA e seus aliados, disseram fontes. No curto prazo, a Guarda Revolucionária Islâmica, de linha dura, provavelmente preencheria qualquer lacuna de liderança, acredita a inteligência dos EUA, de acordo com as fontes.
“[A Guarda Revolucionária Islâmica] é definitivamente proeminente e funciona acima da burocracia militar padrão, mas é difícil prever exatamente o que aconteceria em um cenário de colapso do regime”, disse uma fonte familiarizada com os recentes relatórios da inteligência dos EUA sobre o assunto.
Os EUA também carecem de uma visão clara da hierarquia da IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica) após o assassinato, pelos EUA, do comandante militar mais poderoso do Irã, o general Qasem Soleimani, durante o primeiro mandato de Trump.
Embora os oficiais de inteligência dos EUA tivessem um ótimo entendimento da dinâmica de poder na Venezuela antes da captura do então presidente Nicolás Maduro pelos EUA no mês passado, eles não possuem a mesma visão sobre quem, se é que alguém, seria um substituto viável para o líder supremo do Irã, disseram fontes.
Diversas fontes afirmaram que havia razões legítimas para considerar uma ação militar algumas semanas atrás, no auge dos protestos iranianos. Naquele momento, havia uma pequena janela de oportunidade em que ataques dos EUA poderiam ter potencialmente inclinado a balança a favor da oposição, dando impulso para que os iranianos derrubassem seu governo de forma orgânica.

Essas fontes agora se perguntam se Trump “perdeu a oportunidade” e questionam se ataques militares semanas depois conseguiriam o mesmo que poderiam ter conseguido no mês passado.
Naquele momento, porém, os recursos militares dos EUA estavam concentrados no Caribe, e não no Oriente Médio, o que limitava as opções dos EUA e preocupava os israelenses, que temiam ficar vulneráveis caso o Irã retaliasse com um ataque de mísseis balísticos.
Desde então, Trump mudou sua justificativa para um possível ataque, enquadrando os argumentos na relutância do Irã em interromper o enriquecimento de urânio para seu programa nuclear.
“Acho que eles terão sucesso”, disse Trump na sexta-feira sobre as próximas negociações. “Se não tiverem, será um dia muito ruim para o Irã.”
Diferentemente do mês passado, os EUA agora têm o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln na região, o grupo de ataque do porta-aviões USS Gerald Ford a caminho, e esquadrões de caças e aviões-tanque sendo rapidamente reposicionados.
“Caso não cheguemos a um acordo, precisaremos dele”, disse Trump na sexta-feira, quando questionado sobre o motivo do Ford estar a caminho da região.
O reforço militar oferece às Forças Armadas dos EUA amplas opções de ataque, caso Trump ordene um. Destróieres de mísseis guiados, navegando junto aos porta-aviões, por exemplo, podem transportar dezenas de mísseis de ataque terrestre Tomahawk, com alcance de 1.600 quilômetros e ogiva convencional de 450 quilos.
Os grupos de ataque de porta-aviões da Marinha dos EUA geralmente operam com um submarino de ataque que também pode lançar Tomahawks. Os caças F-35 e F-15E podem transportar uma variedade de bombas guiadas e mísseis ar-superfície.

Entre os alvos potenciais para ataques estão o quartel-general da Guarda Revolucionária Islâmica e outras instalações militares além dos sítios nucleares iranianos, segundo múltiplas fontes.
Há também discussões sobre a realização de operações conjuntas entre os EUA e Israel, disseram as fontes. Essas operações poderiam ser semelhantes à Operação Martelo da Meia-Noite, realizada no verão passado, quando os EUA atacaram instalações nucleares iranianas perto do fim da guerra de 12 dias entre Israel e Irã, acrescentaram.
“É difícil fazer um acordo com o Irã”
Trump afirmou no fim de semana que os EUA “não querem nenhum enriquecimento”, indicando que os EUA não aceitarão um acordo que permita sequer um enriquecimento de urânio em baixo nível pelo Irã. Dada a posição do Irã de que o enriquecimento é um direito seu, fontes disseram que pode não haver espaço para negociação.
Mas as fontes também observaram que as posições intransigentes no início das negociações podem sempre mudar.
Existem também outras maneiras pelas quais o governo iraniano poderia tentar evitar um ataque dos EUA, inclusive com incentivos econômicos.
Durante as várias rodadas de negociações entre EUA e Irã no ano passado, houve discussões sobre possíveis acordos comerciais que poderiam ser firmados em conjunto com um acordo nuclear, incluindo a concessão aos EUA de acesso privilegiado ao desenvolvimento dos recursos de petróleo, gás e terras raras do Irã, disse uma fonte. Espera-se que esse tópico seja levantado novamente, acrescentou essa pessoa.
O chefe da agência de vigilância nuclear das Nações Unidas, Rafael Grossi, reuniu-se com Araghchi em Genebra nesta segunda-feira (16) para o que ambos descreveram como “discussões técnicas aprofundadas”, enquanto se intensificam os preparativos para as negociações nucleares de alto risco na terça-feira.
Em declarações públicas, Rubio afirmou que Trump prefere uma solução diplomática. Mas também enfatizou repetidamente que tal acordo será difícil.
“O Irã é governado, em última análise, e suas decisões são influenciadas por clérigos xiitas – clérigos xiitas radicais, ok? Essas pessoas tomam decisões políticas com base em pura teologia. É assim que tomam suas decisões. Portanto, é difícil fazer um acordo com o Irã”, disse Rubio em uma coletiva de imprensa em Budapeste, Hungria, na segunda-feira.
Questionado no domingo se o governo informaria o Congresso caso decidisse atacar o Irã ou tentar destituir o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, Rubio não se comprometeu.
“Vamos seguir a lei à risca, e tudo dependerá das circunstâncias. Mas, neste momento, estamos falando de negociações”, disse ele em uma coletiva de imprensa na Eslováquia.
“Se isso mudar, ficará óbvio para todos. E, obviamente, faremos tudo o que a lei nos obrigar a fazer”, acrescentou.
Segundo fontes familiarizadas com as negociações, aliados regionais, incluindo os Estados do Golfo, estão profundamente preocupados com a possibilidade de uma ação militar dos EUA desestabilizar a região e têm pressionado para que a ação militar seja adiada, a fim de dar mais tempo à diplomacia.
“Todos estão pressionando contra um ataque”, disse um diplomata da região. Essa pessoa acrescentou que Israel é o único ator regional que tem instado os EUA a atacar.
Enquanto isso, o Irã realizou novos exercícios militares menos de 24 horas antes das negociações em Genebra.
Nesta segunda-feira (16), a emissora estatal iraniana IRIB informou que a Guarda Revolucionária Islâmica havia lançado uma “defesa valente” de três ilhas iranianas por terra, ar e mar, que são objeto de uma antiga disputa de fronteira entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos.
Segundo o relatório, drones da Guarda Revolucionária Islâmica estão posicionados no ponto mais ao sul do Irã, prontos para confrontar quaisquer agressores.
O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã, major-general Abdolrahim Mousavi, alertou no domingo que “Trump deveria saber que estaria entrando em um confronto que traria duras lições, cujo resultado garantiria que ele não voltaria a proferir ameaças pelo mundo”, segundo a emissora estatal Press TV.
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Fonte : CNN