A Rússia afirmou nesta segunda-feira (16) que rejeita veementemente as acusações de cinco países europeus de que o Estado russo teria assassinado o falecido crítico do Kremlin, Alexei Navalny, usando toxina de rãs-flecha.
No sábado (14), cinco aliados europeus acusaram Moscou de assassinar Navalny com o veneno exótico enquanto ele estava detido em uma colônia penal no Ártico, há dois anos.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse a jornalistas nesta segunda-feira que Moscou encarava de forma muito negativa o que ele chamou de acusações falsas.
“Naturalmente, não aceitamos tais acusações. Discordamos delas. Consideramos que são tendenciosas e infundadas. E, de fato, as rejeitamos veementemente”, declarou Peskov.
Quem era Alexei Navalny
Alexei Navalny foi um opositor político do presidente da Rússia, Vladimir Putin. O ativista morreu aos 47 anos em uma prisão na Sibéria, onde cumpria pena de mais de 19 anos após ser condenado por extremismo e fraude, crimes que ele sempre negou.
Navalny ficou mundialmente famoso pela capacidade de mobilizar multidões que saíram às ruas para protestar contra o Kremlin.
O opositor foi considerado por muitos como uma das ameaças mais sérias à hegemonia de Putin, que está no poder há mais de 26 anos.
Navalny ganhou visibilidade pela primeira vez em 2008, quando começou a escrever em seu blog sobre a suposta corrupção em empresas estatais russas. Em 2011, ele emergiu como um dos líderes dos protestos massivos que surgiram após alegações de fraude nas eleições parlamentares daquele ano.
“Aqueles que se reuniram aqui podem expulsar esses ladrões do Kremlin amanhã”, disse Navalny em um protesto de 2011.
Navalny teve seu avanço político freado quando foi condenado por peculato, justamente quando se preparava para concorrer à prefeitura de Moscou. Ele negou as acusações e as classificou como perseguição política.
Um novo julgamento em 2017 o impediu de concorrer a cargos públicos – desta vez, à presidência, contra Putin.
As investigações de Navalny incomodaram as figuras mais poderosas da Rússia. Seus vídeos sobre a aparente riqueza inexplicável de altos funcionários do governo irritaram particularmente o Kremlin.
Um vídeo sobre o ex-primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev teve mais de 35 milhões de visualizações no YouTube. Porém, com o aumento das visualizações, vieram também os riscos.
Em março de 2017, o vídeo sobre Medvedev desencadeou os maiores protestos antigovernamentais que a Rússia havia visto em anos. Milhares de pessoas participaram de manifestações em quase 100 cidades por toda a Rússia. O próprio Navalny foi preso e ficou detido por 15 dias.
No mês seguinte, ele foi atingido por um corante verde antisséptico, que danificou a visão de um de seus olhos.
“Escutem, tenho algo muito óbvio para lhes dizer. Vocês não podem desistir. Se eles decidirem me matar, significa que somos incrivelmente fortes”, disse Navalny a seus apoiadores em um trecho de um documentário feito pela CNN, que venceu o Oscar de 2023.
“Precisamos usar esse poder, não desistir, lembrar que somos uma força imensa que está sendo oprimida por esses caras maus. Não percebemos o quão fortes realmente somos”, disse Navalny.
Envenenamento e recuperação
Em 2020, a situação de Navalny se agravou. Ele foi envenenado durante uma viagem entre Moscou e a cidade siberiana de Tomsk. Depois de socorrido às pressas, ele passou por tratamento na Alemanha, onde chegou a ficar em coma.
Depois de uma investigação, o governo alemão concluiu que Navalny foi envenenado com um agente químico nervoso do grupo Novichok. Em 2018, a mesma substância foi utilizada para envenenar o ex-espião russo Sergei Skripal e a filha dele no Reino Unido. A Rússia negou envolvimento na ação.
O Novichok é um grupo de agentes que atacam o sistema nervoso desenvolvido pela União Soviética nos anos 1970 e 1980.
Uma investigação subsequente da CNN descobriu que uma equipe de elite do serviço de segurança FSB da Rússia, composta por até 10 agentes, perseguiu Navalny durante mais de três anos. O grupo, que incluía especialistas em armas químicas, seguiu Navalny em mais de 30 viagens de ida e volta a Moscou desde 2017.
A Rússia negou envolvimento no envenenamento de Navalny. Putin disse naquela altura que se o serviço de segurança russo quisesse matar Navalny, “teriam terminado” o trabalho.
A prisão de Navalny na Rússia
Depois de se recuperar na Alemanha por cinco meses, Navalny voltou em 2021 a Moscou, onde foi preso e condenado a mais 19 anos de prisão. Ele foi considerado culpado de criar uma comunidade extremista, financiar ativistas extremistas, além de vários outros crimes.
Apoiadores alegaram que a prisão foi politicamente motivada com o objetivo de reprimir suas críticas a Putin.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, Navalny usou as redes sociais para denunciar o ataque, defendendo protestos contra a guerra em todo o país como “a espinha dorsal do movimento contra a guerra e a morte”, segundo a Reuters.
Em outro tweet, Navalny disse: “O melhor apoio para mim e para outros presos políticos não é simpatia e palavras gentis, mas ações. Qualquer atividade contra o regime enganador e ladrão de Putin. Qualquer oposição a esses criminosos de guerra.”
A morte na prisão na Sibéria
Navalny ficou preso por três anos perto de Moscou, antes de ser transferido para a isolada colônia penal IK-3 (Lobo Polar) ao norte do Círculo Polar Ártico, onde morreu apenas dois meses depois.
O ativista chegou a relatar que dormia debaixo de um jornal para se aquecer e tinha de fazer refeições em 10 minutos.
Durante uma audiência por vídeo para um tribunal de Moscou, um dia antes de morrer, ele descreveu as condições “congelantes” dentro da prisão.
Um relatório divulgado no dia 14 de fevereiro apontou que Navalny foi assassinado na prisão por uma toxina letal encontrada em rãs-flecha venenosas da América do Sul.
Análises de amostras coletadas do corpo de Navalny “confirmaram a presença de epibatidina”, uma substância que não é encontrada naturalmente na Rússia.
O documento foi assinado por cinco países europeus — Reino Unido, Suécia, França, Alemanha e Holanda — e afirma que o governo da Rússia “tinha os meios, o motivo e a oportunidade de administrar esse veneno” a Navalny.
Autoridades russas negaram repetidamente qualquer responsabilidade pela morte de Navalny.
Navalny morreu pouco antes das eleições presidenciais da Rússia, quando Putin concorreu e venceu para governar um quinto mandato, uma medida que abriu caminho para mantê-lo no poder até pelo menos 2030.
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Fonte : CNN